Já se passaram nove anos desde o dia 21 de abril de 2010. Uma emboscada na estrada, entre as extensas áreas de plantação de bananas, 25 tiros em Zé Maria. O covarde e brutal assassinato do morador da comunidade do Tomé e ativo militante contra a pulverização aérea de agrotóxico na Chapada do Apodi, foi um recado a qualquer um que se colocasse entre os interesses do setor de fruticultura irrigada que tem forte influência econômica e politica no território.

Contundo, ainda que a violência tivesse como objetivo intimidar a população, o crime gerou comoção, solidariedade e mobilização popular em torno dos conflitos relacionados às violações de direitos no Vale do Jaguaribe. A Semana Zé Maria do Tomé nasce dessa circunstância, sendo realizada a cada novo ano que se completa desde a morte do líder comunitário. Integrando comunidades, organizações, movimentos, paróquias, estudantes, pesquisadores e professores articulados em torno do Movimento 21 de Abril, a Semana é promovida para, de um lado, manter fortalecidos os elos entre as lutas – especialmente por água, terra e saúde -, e de outro, repercutir e intercambiar o que tem gerado vida e transformação social.

É também objetivo de origem da semana demarcar o crime, para não deixar que a luta e a morte de Zé Maria caiam no esquecimento e que o julgamento dos responsáveis chegue ao seu desfecho. “Praticamente 10 anos e até hoje não há uma definição. E há uma tendência da justiça em inocentar os mandantes. E por isso a gente continua insistindo e querendo saber quem mandou matar Zé Maria, quem pagou pra matar Zé Maria”, afirma o professor, teólogo e padre da Diocese de Limoeiro do Norte, Júnior Aquino.

Da luta por direitos ao direito de lutar

Significada na história local e em diálogo com os desafios políticos nacionais, a IX Semana trouxe como tema “Da luta por direitos ao direito de lutar: re-existências do Vale do Jaguaribe”. Enquanto o país atravessa um período de destruição de direitos sociais e de crescente criminalização da vivência da cidadania, o território do Vale no semiárido cearense sente esse impacto em sua realidade no acirramento dos conflitos por água, terra e modos de vida e produção.

Para que a população possa se debruçar sobre essa realidade, a Semana Zé Maria sempre agrega o caráter de compartilhamento de conhecimentos acadêmicos, propiciando vários momentos nesse sentido. A semana deste ano – realizada entre os dias 29 de abril e 04 de maio – contou com mesas de debate sobre direito ao semiárido, à água, à saúde, à educação e à participação política. Aline Maia, da Cáritas Diocesana de Limoeiro, frisa a importância dessas atividades, acolhidas geralmente pela Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (FAFIDAM), campus da Universidade Estadual do Ceará em Limoeiro do Norte. “(…) é o momento em que as universidades devolvem as pesquisas que tem feito na região do Vale do Jaguaribe. (…) é um momento muito rico, de muitas partilhas, de muitas trocas de experiências”, comenta.

Romaria da Chapada

O coração da Semana está no acontecimento da Romaria da Chapada, realizada no dia 21 de abril para lembrar Zé Maria e outros mártires das lutas populares. O percurso leva centenas de pessoas – da região e de outras cidades do Ceará e do Brasil – do memorial construído no local exato onde aconteceu o assassinato, até a capela da comunidade do Tomé. “E no centro da Romaria (está) a celebração da eucaristia, onde a gente une a morte e a ressurreição de Jesus Cristo com a morte e ressurreição do nosso povo”, diz Pe. Júnior Aquino.

Este ano a chuva modificou o trajeto, mas não esmoreceu quem participou pela primeira vez, nem muito menos quem participa todos os anos. Para Aline Maia, “é também um momento de anunciar as boas novas que tem acontecido na nossa região, é um momento que nos une na nossa espiritualidade”.

A fé fortalece o povo em meio as tensões do território. “No mesmo tempo em que a gente faz memória do assassinato de Zé Maria, a gente celebrou a ocupação, que depois se transformou no acampamento Zé Maria do Tomé. (…) Ao mesmo tempo que a gente denuncia o uso intensivo de agrotóxicos, a gente celebra – como esse ano, a gente celebrou essa Lei Estadual que proíbe a pulverização aérea. Ao mesmo tempo em que a gente celebra essa conquista da lei, a gente denuncia a ação do governo, o ‘doce’ que o governo dá para as grandes empresas com essa nova resolução do COEMA, que permite licenciamento com uso de agrotóxicos (em propriedades) com até 39 hectares. Então, a gente vive sempre nessa tensão entre luto, luta, festa, e não tem como separar isso”, acredita Júnior Aquino.

Onde a vida e a produção acontecem, mobiliza-se a esperança

Por todo o Vale do Jaguaribe são inúmeras experiências de bem viver que se desenvolvem e se fortalecem, ainda que sejam tantas as ameaças a esses modos de vida. Neste ano, a Semana abrigou o I Encontro de Agricultoras e Agricultores Experimentadores do Vale do Jaguaribe, organizado pelo Fórum Microrregional de Convivência com o Semiárido. O objetivo principal foi possibilitar o encontro de experiências de convivência com o semiárido e das descobertas e transformações que essas experiências têm provocado na vida das famílias do campo.

Os protagonistas, agricultoras e agricultores da região, intercambiaram suas riquezas com outros participantes na visita a cinco experiências de produção familiar agroecológica com o uso de tecnologias sociais como o bioágua e o biodigestor, implementadas pela Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte e pelo Instituto Brotar. O momento de encontro e partilha sobre as visitas aconteceu na Escola Família Agrícola Jaguaribana Zé Maria do Tomé, em Tabuleiro do Norte.

Para Thiago Valentim, coordenador da EFA, foi um momento muito bonito, de ouvir as famílias e as instituições que fizeram as implementações, aliando os conhecimentos técnicos com os saberes populares, e, principalmente, fazendo essa troca nos próprios quintais, nas casas das famílias. O desejo é conseguir realizar o encontro nos anos vindouros e interligá-lo com outras atividades e espaços no Vale que discutam os problemas sociais e o enfrentamento às injustiças, olhando para tudo o que povo tem construído e quer preservar.

Zé Maria, que também dá nome a EFA, costura as articulações populares em torno da Semana e une as histórias de outros homens e mulheres para alimentar a esperança e a utopia tão marcantes no povo da região, como diz Valentim. “A memória de Zé Maria e de sua luta contra a pulverização aérea, em defesa dos agricultores e das agricultoras, dos trabalhadores e trabalhadoras da Chapada, é uma luta que permanece presente na resistência das comunidades. Então, a gente tá dando continuidade à luta de Zé Maria, ao projeto que a gente acredita, que é um projeto de vida”.

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A Rede Cáritas Ceará presta homenagem a Lúcio Oliveira, do Acampamento Zé Maria do Tomé, que nos deixou no começo da IX Semana, mexendo com os sentimentos dos familiares, companheiras e companheiros de acampamento e das lutas do território. Lúcio nos deixa em vida, mas segue sendo semente para as vidas que continuarão a sonhar com um mundo feliz e justo como ele sonhou.

Por Raquel Dantas, da Cáritas Regional Ceará. Fotos:  Monaiane Sá, Cleirton Damasceno e Raquel Dantas.

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