Potencializar repertórios e saberes em prol do bem viver das comunidades, dos povos e de seus territórios é a missão que unifica duas ações significativas para as lutas socioambientais: a educação popular e a convivência com o Semiárido.

O encontro entre os dois campos deu vida a um projeto de organização sociopolítica e de formação entre trabalhadoras e trabalhadores da Rede do Sistema Único de Saúde (SUS) e militantes de movimentos, coletivos e organizações sociais. É o Curso de Especialização e de Aperfeiçoamento em Educação Popular e Promoção de Territórios Saudáveis na Convivência com o Semiárido, organizado pela Articulação Nacional de Movimentos e Práticas em Educação Popular e Saúde (ANEPS) e pela Rede Saúde, Saneamento, Água e Direitos Humanos (RESSADH). O projeto é coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz Ceará e tem financiamento do Ministério da Saúde através da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa (SGEP).

“A riqueza desse processo se dá por esse diálogo (entre as áreas) e também por toda a construção coletiva que foi feita desde o início”, comenta Ana Cláudia de Araújo, pesquisadora da Fiocruz Ceará e uma das coordenadoras do curso.

São 77 educandas e educandos dos territórios de Fortaleza, Sobral, Sertão Central, Cariri e Vale do Jaguaribe/Litoral Leste, no Ceará, e da região Oeste do Rio Grande do Norte. Locais em que ANEPS e RESSADH puderam contribuir com a redução de impactos socioambientais em contextos de intensa desterritorialização de grupos sociais e violação de direitos humanos. Nesse sentido, o curso também pretende ser um caminho de revolução do saber e de transformação dessas realidades.

O curso é dividido em três unidades de aprendizagem: Educação Popular em Saúde no Contexto do Semiárido; Diálogos e intervenções nos territórios; e Políticas públicas e sistematização de ações afirmativas em Educação Popular em Saúde e Convivência com o Semiárido nos Territórios. Cada unidade conta com o tempo escola – onde serão desenvolvidas as atividades pedagógicas presenciais – e o tempo comunidade – período para a elaboração do Projeto de Intervenção, para os/as cursistas do Aperfeiçoamento, e do Trabalho de Conclusão de Curso, para os/as educandos/as da Especialização.

A abertura do curso aconteceu dia 07 de janeiro na sede da Fiocruz Ceará, no Eusébio, região metropolitana de Fortaleza. Momento das primeiras trocas entre a turma que estará junta ao longo de todo o ano de 2019 produzindo pensamento e ação, intercambiando realidades, saberes e existências. O Centro de Formação, Capacitação e Pesquisa Frei Humberto, na capital cearense, será o local para as aulas presenciais. Além das unidades de aprendizagem, o projeto inclui 5 encontros regionais e 1 encontro interestadual para promover o intercâmbio das experiências em educação popular em saúde e convivência com o semiárido que serão realizadas pelas educandas e educandos nos territórios.

Política de Educação Popular em Saúde

Um dos principais objetivos da formação é contribuir para a implantação da Política Nacional de Educação Popular em Saúde nos dois estados, a partir da qual seja possível atuar pela formação permanente, o cuidado e a participação social.

Vera Dantas, também coordenadora do curso, explica que existe o desejo de que a prática seja incorporada de fato pelo SUS, abrindo pontes de diálogo e ação com outros sujeitos de fora do setor da saúde. “Se eu estou numa área que é atingida pelo uso de agrotóxicos, e isso tem prejudicado a saúde das pessoas, como é que os movimentos do campo da saúde e da educação popular se juntam com os movimentos que lutam contra os agrotóxicos, que lutam pela agricultura familiar e agroecológica, para que a gente construa possibilidades de um caminho de viver mais saudável?”, exemplifica Vera. Vislumbrando essa perspectiva de atuação local, propõe-se uma articulação com a Secretaria de Saúde do Ceará (SESA) e a Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza.

Na perspectiva da prevenção, promoção e vigilância da saúde, Ana Cláudia ressalta a expectativa de que o curso contribua com o desenvolvimento de estratégias que visem à incorporação das experiências e práticas de Educação Popular na atenção básica com enfoque na temática ‘Água, Agroecologia, Saneamento e Tecnologias de Convivência com o Semiárido’.

Para Vera Dantas, a formação abre ainda a “possibilidade de recriar os rituais de educação e saúde, e também de recriar os rituais de cuidado, com essas práticas que não são necessariamente de cuidado sobre o corpo das pessoas, mas são de cuidados com essa pessoa e tudo o que a constitui, que é o seu próprio ambiente”.

Por Raquel Dantas, Cáritas Regional Ceará/RESSADH
Fotos: Miguel Cela (CETRA) e Raquel Dantas

 

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