Em tempos de fechamento de diversas escolas do campo, uma nova se concretiza no sertão do Vale do Jaguaribe. Mas não uma escola convencional. “Politicamente camponesa, a EFA Jaguaribana Zé Maria do Tomé carrega a marca da sua maior justificativa”, é o que diz o seu Projeto Político Pedagógico. A Escola Família Agrícola Zé Maria do Tomé foi sonhada, planejada e construída a partir dos princípios de uma educação popular, contextualizada ao seu lugar e às demandas de seu povo, com base na agroecologia, na pedagogia de Paulo Freire, na convivência com o Semiárido e no Bem Viver.

Sua afirmação política se deve à necessidade de fortalecimento popular para enfrentar as ameaças que marcam o território: o agronegócio, em especial, mas não somente; também a carcinicultura, a mineração, as eólicas e as siderúrgicas. Atividades econômicas que têm desestruturado a vida de camponesas e camponeses através da espoliação da terra e da água, da destruição do bioma, além da tentativa de silenciamento das pessoas que se colocam contra essa realidade. Por isso, o nome do camponês José Maria Filho batizou a EFA Jaguaribana. Neste 21 de abril, já se vão oito anos do assassinato do morador da comunidade do Tomé. Meses antes do crime, a Câmara de Vereadores de Limoeiro aprovou a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos, após intensa mobilização que contou com Zé Maria como um dos porta-vozes. Logo após o seu assassinato, a Câmara revogou a decisão.

Educandas e educandos da EFA Zé Maria plantando uma árvore para tornar física a memória do dia de visita, encontro e diálogo. Foto: Eva Marques.

Na mesma semana em que a população e os movimentos sociais reavivam a memória do camponês, a EFA inicia suas atividades com treze educandas e educandos e uma equipe de voluntárias e voluntários, unidos pela dedicação a esta proposta de educação contextualizada. A iniciativa partiu da Comissão Pastoral da Terra, que mobilizou comunidades e organizações da sociedade civil, inspirada na experiência de 15 anos da EFA Dom Fragoso, na comunidade rural Santa Cruz, em Independência. Assim como a EFA Dom Fragoso e a EFA Chico Antônio Bié, na Ibiapaba, a EFA Zé Maria funciona de forma autônoma e é mantida por uma associação. No caso desta, pela Associação Escola Família Agrícola Jaguaribana (AEFAJA).

O espaço onde a escola está funcionando ainda é provisório, num terreno onde o ambientalista Jesus Moreira, vice-presidente da EFA, deu origem ao Parque Ecológico dos Currais, comunidade em Tabuleiro do Norte. Lugar privilegiado pela presença de olhos d’água, lagoas e mata nativa. A sede será construída em breve, num local bem próximo, dentro do parque.

A escola terá sua dinâmica na pedagogia da alternância, mensalmente, com uma sessão presencial de 12 dias na escola, e o período seguinte com o desenvolvimento das atividades e estudos nas comunidades onde vivem. A primeira sessão é de adaptação, mas o tempo escola contará com atividades práticas pela manhã, estudos teórico e técnico ao longo do dia, e momentos de lazer e de integração com a comunidade a noite. No plano pedagógico existe a construção do projeto de vida de cada educando com suas famílias. Fica sobre a responsabilidade dos alunos trabalharem a mesma proposta com outras dez famílias da comunidade.

Como tudo é novo, muitas ideias ainda estão em gestação. Mais a frente, a pretensão é criar um Centro de Medicina Popular, com o intuito de retomar e preservar saberes populares que estão sendo perdidos. Assim também como tornar a EFA auto-sustentável de alimentos e poder comercializar produtos excedentes a partir da organização de uma feira agroecológica na sede do município.

Roda de conversa sobre educação contextualizada e agroecologia

Das lutas que se referenciam, nada mais simbólico do que iniciar a primeira sessão da EFA durante a VIII Semana Zé Maria do Tomé. O Movimento 21, que articula a semana, organizou uma roda de conversa na EFA sobre educação contextualizada e agroecologia, com o objetivo de beber da fonte da experiência recém-nascida. Para provocar o diálogo, a roda contou com Thiago Valentim, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e presidente da Associação Escola Família Agrícola Jaguaribana; com Alexandre Caique, permacultor, estudante de agronomia do IFCE de Limoeiro do Norte e integrante da startup Muda Meu Mundo; e Aline Maia, da Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte.

“A EFA nasce da demanda de uma educação do campo fora do domínio dos ruralistas. Nasce da luta dos movimentos sociais para que outras experiências aconteçam”, afirma Thiago ao compartilhar os desafios e o processo de criação da escola. O modelo convencional de ensino, com sua lógica de formação engessada para atender demandas mercadológicas, se apresenta como uma barreira concreta para a adoção da agroecologia.

Roda de conversa sobre educação contextualizada e agroecologia na EFA Zé Maria. Foto: Diego Gadelha

Alexandre Caique fala como o curso de Agronomia do Instituto Técnico Federal se volta para os ensinamentos das receitas prontas e do pacote tecnológico da agricultura irrigada. Admite, inclusive, como o agronegócio era a sua perspectiva de agricultura quando iniciou o curso, e acha fundamental afirmar isso para que muros, como esse, possam ser observados. Aderir à agroecologia também encontra resistência da parte de muitas trabalhadores e trabalhadoras do campo que foram levados a acreditar no modelo. “Por isso, é importante que a gente fale também do viés econômico, porque o agricultor vive da agricultura e precisa ter como permanecer no campo”, diz Caique. Aliar essas necessidades à formação que leva em conta os aspectos sociais e a prática, como propõe a EFA, é, para ele, uma iniciativa muita importante para a região.

“Depois que conheci a Cáritas, ainda como aluna da Geografia, eu comecei a entender o que era a educação do campo, na prática, sem conceitos e teorias”, é o que diz Aline. Compreendeu que esta educação possibilita refletir, na comunidade, quais as demandas, os problemas e os caminhos para transformar a realidade local, indissociáveis da luta. “A EFA nos ajuda a sermos sementes”, como educandas/os e adeptos de sua proposta, conclui Aline.

No terceiro dia de aula da turma, é evidente, nas expressões e depoimentos das educandas e educandos, que a escola começa muito bem. Eles já adiantam a falta que sentirão da convivência com os colegas ao final desta primeira sessão. E dentre os interesses que levaram a participarem da seleção da EFA, vieram a necessidade de ajudar os pais agricultores, a curiosidade pela proposta, a oportunidade única de estudar numa escola em contato direto com a natureza, a vontade de uma formação não mercadológica e a própria história de Zé Maria do Tomé.

Para as/os agrônomas/os e professoras/es voluntárias/os da EFA, essa união regada de expectativas tão inspiradoras, dá o tom da vivência que estão construindo. Daniel de Souza revela o desafio de educar de maneira diferente daquela em que foram formados, e que junto com os alunos, também estarão em formação. Adelita Chaves acredita no tempo presente desta experiência: “Ela não vai ser, ela já está sendo”, e aposta na certeza de que elas/es serão multiplicadores de uma nova realidade no Brasil através da agroecologia.

Por Raquel Dantas, Cáritas Regional Ceará. Fotos: Eva Marques e Diego Gadelha.

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