Em 19 anos de atuação da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) com agricultoras e agricultores familiares de todo o território alcançado pelo bioma, e – deve ser dito – com um governo que valorizou suas iniciativas de convivência, foi possível transformar essas ações em políticas públicas. Estas, aliadas à metodologia de trabalho das organizações, geraram impacto incomparável na história do semiárido no que diz respeito ao acesso à água, à segurança alimentar, à consciência socioambiental e à construção da agroecologia.

Em 2018, o golpe político deixou evidente a que veio também em relação a convivência com o Semiárido, cortando 92% do orçamento federal para a implementação das cisternas em relação aos anos anteriores. A cisterna de placa foi a porta de entrada para todo o debate político em torno da convivência e da agroecologia.

Depois de quase 20 anos e um novo cenário político, algumas reflexões batem a porta. O Fórum Microrregional de Convivência com o Semiárido do Vale do Jaguaribe organizou um debate nesse sentido, colocando o potencial político das tecnologias sociais como afirmação, mas também como questão a ser aprofundada. O debate aconteceu na quinta-feira (19/04), na programação da VIII Semana Zé Maria do Tomé, na sede do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Limoeiro do Norte.

Compuseram a mesa para compartilhar questões em torno desse tema José Augusto, agricultor de Lagoinha, em Quixeré; Dona Santa, agricultora de Bixopá, Limoeiro do Norte; Aldenor Marcelino, Sindicato dos/as Trabalhadores/as Rurais de Russas e da coordenação do Fórum Microrregional do FCVSA; Paulo Lima, professor do IFCE de Limoeiro e voluntário da Cáritas de Limoeiro; e Anjerliana Souza, também da Cáritas de Limoeiro.

Impactos das tecnologias sociais

Dona Santa e Zé Augusto, como agricultora e agricultor que acessaram o direito às tecnologias sociais pelos projetos da ASA – como o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) -, avaliam os impactos das implementações para as famílias do Semiárido. Foram as cisternas, segundo Dona Santa, que conduziram toda a ação de convivência, a partir da garantia imediata da captação de água das chuvas, que asseguraram água de beber e água para produzir. Realidade bem diferente para quem viveu o Semiárido até a década de 1990. Hoje, Santa compreende o cenário de redução de recursos para as ações e os limites que isso gera para a capacidade de atuação das instituições da ASA, mas gostaria de ver as tecnologias chegando para mais famílias, e estas conseguindo desenvolver uma ação familiar e comunitária integrando as implementações e os saberes gerados nesse contexto.

Novas possibilidades de tecnologia social também despontam trazendo resultados surpreendentes. É o caso do sistema bioágua, tecnologia que vem sendo implementada na comunidade de Zé Augusto, Lagoinha, pela Cáritas de Limoeiro. Desde que o bioágua foi construído em sua casa, no final do ano passado, ele não apenas colheu o jerimum sem uso de fertilizantes e agrotóxicos – aprovado por toda a família, como também produziu mais de 100 kg de húmus de minhoca. Alimento e renda garantidos com o reuso de águas utilizadas nas pias e chuveiros domésticos. A comunidade teve três sistemas familiares construídos pelo projeto. Tem dado tão certo que a comunidade entrou em mutirão para construir mais um por conta própria.

Potencial de mobilização popular, solidariedade e envolvimento político

Mas as tecnologias não são um fim em si mesmo, porque por si só não garantem todas as condições necessárias para a vida do povo do campo. É preciso olhar, compreender e incidir nas decisões políticas que envolvem o semiárido. Paulo Lima (IFCE e Cáritas Limoeiro), cita essa necessidade em relação à política e à gestão estadual dos recursos hídricos. “Até que ponto a água das grandes obras hídricas – tomadas há décadas como solução para enfrentar a escassez – chegam ao produtor que está disperso nessa grande área (estadual)? (…) Nós estamos no nível da sobrevivência em relação ao abastecimento dos açudes. Quem de fato tem garantia hídrica hoje no Estado do Ceará?”, questiona olhando para a capacidade do Castanhão e dos outros principais açudes cearenses, além da manutenção de atividades econômicas de uso intensivo de água, enquanto, para comunidades inteiras, não há mais abastecimento.

Mesa do Fórum Microrregional de Convivência com o Semiárido do Vale do Jaguaribe durante a VIII Semana Zé Maria do Tomé. Foto: Eva Marques

É o caso do agronegócio, para quem não falta água. “Em apenas um ano, a água extraída do aqüífero Jandaíra-Açu equivale ao total de água de um milhão de cisternas. Água que foi exportada em melão, banana e melancia pelas empresas de fruticultura da Chapada do Apodi”, afirma Diego Gadelha (voluntário da Cáritas e professor do IFCE), mediador do debate.

Relacionando todas essas questões, Anjerliana Souza (Cáritas Limoeiro) traz indagações estruturantes para avaliar o saldo de nossa capacidade de mobilização ao longo desses anos. “As tecnologias sociais tiveram um impacto positivo importantíssimo, mas nós também precisamos nos perguntar, para além de nós – famílias beneficiadas e instituições, se estamos fazendo mobilização política. Quantas famílias a gente consegue envolver nas mobilizações? Quantas avançam no envolvimento com a luta e com a adoção da prática da agroecologia de fato? Como eu posso ser beneficiada e não estar junto de quem não tem água? Qual tem sido o nosso papel como instituições?”, indaga.

Para responder na prática essas perguntas, Anjerliana propõe que o Fórum Cearense pela Vida no Semiárido discuta um plano político-estratégico que compreenda articulação, formação e mobilização para além dos programas de convivência. “Num cenário como esse, nós somos convidadas/os a rever nossa metodologia de trabalho com as famílias. O que a gente quer construir?”, finaliza.

Por Raquel Dantas, da Cáritas Regional Ceará.  Fotos: Eva Marques e Raquel Dantas

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