A estrada que abre os caminhos do sertão cearense até a comunidade de Morrinhos margeia distante um conjunto de serras grandiosas. A pouca chuva que caiu desde o despontar de fevereiro revelou novamente a exuberância verde de várias tonalidades da região semiárida, entre os municípios de Santa Quitéria e Itatira. Ali, nas entranhas destas serras, minérios cobiçados pelas indústrias ameaçam a manutenção da paisagem, os modos de vida da população e a saúde de milhares de famílias de comunidades localizadas ao redor da reserva. O urânio e o fosfato – que representam perigo pelo caráter radioativo e tóxico – encontrados no território estão no alvo de empresas de mineração desde o final da década de 70. Mas foi em 2004 que a exploração ficou mais próxima de se tornar realidade com a formação do Consórcio Santa Quitéria, pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e Grupo Iara (antigo grupo Galvani). Desde então, algumas famílias de Queimadas, Riacho das Pedras e Morrinhos passaram a buscar informação sobre o projeto, a receber apoio de movimentos e organizações sociais e instituições de pesquisa e a fazer frente de resistência para que a exploração não se concretize.

Oficina “Mulheres e Mineração”, com Iara Fraga, do MAM Ceará, durante o Intercâmbio de Juventudes em Morrinhos. Foto: Paulo José (Cáritas Regional Ceará)

Para conhecer as pessoas que tem resistido a este projeto, jovens de diversas partes do Estado cruzaram as estradas rumo a Morrinhos. O Intercâmbio Regional “Juventudes do Campo e Cidade: tecendo redes de resistência pela soberania popular na mineração” proporcionou três dias de vivências e debates que aproximaram diferentes realidades juvenis em torno de um propósito comum: conseguir fortalecer as resistências locais através de um movimento de solidariedade que conecte jovens por todo o Estado. É com essa missão que desde 2014, em um intercâmbio como este, uma Rede Estadual de Juventudes vem sendo gestada e construída a várias mãos em grupos comunitários, movimentos, fóruns e articulações territoriais. Esta iniciativa vem sendo acompanhada e mobilizada com a parceria da Rede Cáritas Ceará através das ações do Programa Infância, Adolescência e Juventude (PIAJ).

O intercâmbio de Morrinhos foi organizado pela comunidade, Rede Estadual de Juventudes, Cáritas Diocesana de Sobral e Cáritas Regional Ceará em parceria com o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). Na noite do dia 09 de março, os jovens foram recepcionados e apresentados à comunidade pelo presidente da Associação das/os Moradoras/es de Morrinhos, Raimundo Viana. Ao longo do dia 10, uma roda de conversa sobre o contexto brasileiro e cearense da mineração, além de oficinas relacionando mineração a temas como água, agroecologia e campesinato, e a grupos, como mulheres e juventudes, proporcionaram maior apropriação dos debates pelos jovens. A noite cultural foi realizada na frente da Casa de Sementes Manoel Eufrázio Gomes, recém construída, e foi marcada por apresentações construídas durante as oficinas e por apresentações de pessoas da comunidade, aproximando jovens, adultos, idosos e crianças.

Liduína Paiva (ao fundo e à esquerda) e as jovens da comunidade de Morrinhos. Foto: Monaiane Sá (Rede Estadual de Jovens e Cáritas Tianguá).

O jovem de Riacho das Pedras, Luiz Jean Paiva, traduz a importância desses encontros ao relembrar de seu Chico Eufrázio, de Morrinhos. Este lhe contava, durante uma atividade da Rede de Intercâmbio de Sementes, sobre o tempo em que foi favorável ao projeto. Chico faz questão de dizer que, se antes foi ludibriado com as promessas dos empresários, hoje é a pessoa mais contrária ao empreendimento. Liduína Paiva, mãe de Luiz, aproveita para alertar a juventude: “as propagandas virão. O emprego é por pouco tempo e os malefícios para toda uma vida”. Os mecanismos utilizados para seduzir as comunidades, capturam justamente aqueles que estão em busca de oportunidades e melhorias de condições de vida que muitas vezes não encontram em suas localidades desassistidas pelos poderes públicos. O professor e agricultor Luís Paulo Santos sabe bem o que isso significa. Depois de morar em Fortaleza e no Rio de Janeiro, se deu conta de que o seu lugar era e poderia continuar sendo Morrinhos. Hoje ele reforça a estratégia do convencimento com pessoas que ainda acreditam que o projeto será bom para a região. “A gente quer viver. Sou muito feliz de estar aqui porque eu estou onde quero, com as pessoas com quem eu quero e vivendo da forma que quero”, diz. Depois que retornou para a comunidade, seu lugar de origem, tem feito todo o esforço possível para que Morrinhos e o território permaneçam com sua incrível paisagem de serras e com a tranquilidade de seus dias. Para Eduana e Victor Iury, representantes da Rede Estadual de Juventudes e jovens mobilizadores das Cáritas de Sobral e de Fortaleza, respectivamente, encontrar as formas de construir a soberania popular nos seus territórios será o desafio que carregarão deste intercâmbio.

Por Raquel Dantas, Cáritas Regional Ceará.

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