Identidade, memória, patrimônio e território formam uma teia de significados valiosos para os jovens que participam do curso de formação Juventudes, Participação Social e Políticas Públicas – Tecendo Redes de Incidência Política, organizado pela Cáritas Ceará com a Rede Estadual de Juventudes e parceria do Centro Inaciano de Juventude. Experiências e perspectivas neste grande campo de lutas sociais foram a tônica do segundo módulo do curso, realizado entre os dias 8 e 10 de setembro. O educador desta etapa foi o historiador e militante João Paulo Vieira, à frente do Projeto Historiando e integrante da Rede Cearense de Museus Comunitários e da Rede Indígena de Memória e Museologia.

Ir em busca da própria história e entender a importância de valorizá-la e preservá-la é uma certeza orientadora para os jovens da Rede em relação aos seus territórios. Nesta etapa, em um primeiro momento de apresentação de objetos e símbolos que identificam suas comunidades, a forte relação de pertencimento se fez visível. É através desta noção que mobilizações populares têm garantido a permanência destes jovens em suas comunidades. Em grande parte destas, os jovens vivenciam situações de conflito, seja no campo ou nas áreas urbanas, e por fatores distintos: pela especulação imobiliária, por grandes obras hídricas, pela instalação de parques eólicos, pela degradação ambiental causada por atividades econômicas como o agronegócio, a carcinicultura e outros, ou mesmo pela violência do Estado ou do tráfico.

Rede de Jovens se uniu aos índios Tapebas na festa de comemoração pelo anúncio da demarcação da terra.

Através do debate e da construção de noções coletivas sobre o conceito de patrimônio, a turma levantou uma série de casos pelos quais puderam perceber os limites ou mesmo a negação das histórias contadas pelo povo nas histórias ditas oficiais. Estas estão nos livros didáticos utilizados nas escolas formando gerações inteiras, como lembra Daniele Moura, de Caatingueirinha. Cleiton Neto, de Juazeiro do Norte, frisa que é também o caso marcante da ideia forjada de inexistência dos negros no território cearense, assim como dos indígenas. História elaborada pelas elites, beneficiando interesses próprios e subjugando uma população inteira à invisibilidade, após séculos de violência. Uma das facetas mais cruéis é o próprio povo ser convencido a acreditar que aquilo que lhe caracteriza não é importante. “A história oficial esmaga e aniquila a história popular”, é o que constata Marciel Melo, de Independência.

Diante deste mergulho fundo em reflexões, João Paulo provoca a turma: “A memória está em disputa, está em litígio. Quais são as nossas histórias? Como vamos narrá-las e torná-las vivas?”. A formação também teve o intuito de proporcionar a partilha de metodologias a serem apropriadas pelas juventudes e suas comunidades, retirando a suposta exclusividade de saberes de historiadores e sociólogos para que os próprios sujeitos contem as suas histórias. Através deste (re)encontro, a memória ganha força. É ela que faz dos territórios nosso patrimônio, afirma Shirley Almeida, do Centro Inaciano. A apropriação sobre a memória, história e identidade é o que vai definir a construção dos movimentos de resistência contra os desafios aos quais estão submetidos em seus territórios. “Os jovens que segurarão o bastão das lutas futuras – e das lutas de agora! Portanto, é importante que se apropriem da história local”, fica a convocatória de João Paulo.

Saindo da sala de aula, a turma fez uma vivência na aldeia Tapeba, em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza. Dia de festa para o povo indígena pela publicação da portaria demarcatória de suas terras após quase 40 anos de luta. Quem recebeu as educandas e os educandos do curso foi um jovem, João Kennedy, da Comissão de Juventude Indígena do Ceará (Cojice). Não por acaso, a valorização do povo indígena em relação a sua memória e identidade resultou na geração de Kennedy, de jovens indígenas comprometidos com as lutas de seu povo. Movimento inspirador que, pela feliz coincidência temporal, neste momento específico de discussão sobre patrimônio e território, pôde conectar jovens de tantos lugares do Ceará a uma história concreta de luta, no dia em que o povo Tapeba celebrou a sua maior conquista.

Curso de Formação e ações do PIAJ

O curso Juventudes, Participação Social e Políticas Públicas – Tecendo Redes de Incidência Política é uma das ações desenvolvidas pela Rede Cáritas Ceará através do Programa Infância, Adolescência e Juventudes (PIAJ). Participam da formação jovens dos oitos territórios diocesanos em que as Cáritas (Arqui)diocesanas atuam e que compõem a Rede Estadual. Foram integrados a esta Rede, através do curso, jovens representantes de coletivos, articulações, pastorais e organizações parceiras.

Mística de encerramento do 2º módulo do curso de formação política do PIAJ. Foto: Maykon Lima

A formação teve início nos dias 04, 05 e 06 de agosto. Na noite do dia 04 aconteceu a aula pública inaugural do curso, tratando sobre os desafios da formação política em tempos de crise no contexto latinoamericano, com a professora e militante Roberta Traspadini, da Universidade Federal da Integração Latino Americana (UNILA) e da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). O conteúdo da aula inaugural foi parte do tema geral do primeiro módulo do curso: história social e política brasileira sobre aspectos econômicos e compreensão do funcionamento dos aparelhos ideológicos do Estado e das relações de poder, trabalhado por Roberta.

O curso de formação é uma das ações de fortalecimento da Rede Estadual de Jovens, articulação que ganhou vida nos encaminhamentos do Encontrão de Juventudes de Itapipoca em 2014. A Rede deu início aos trabalhos em 2015, contando com a assessoria da Cáritas para discutir as bases e os objetivos da articulação. A partir deste ano, as ações pelo PIAJ visam, sobretudo, estimular a autonomia da Rede de Juventudes. Através do curso e de outras atividades, a contribuição passa também pela possibilidade de ampliar a articulação, promover o contato e o diálogo sobre temas formativos que despertem a compreensão e conexão entre as realidades dos jovens que a compõem e incentivar mobilizações em torno dos desafios comuns.

Por Raquel Dantas, Cáritas Regional Ceará.  

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