A Cáritas Regional Ceará lançou no dia 08 de agosto o projeto “Água de Reuso para os Quintais de Maria”, através do qual vai realizar intercâmbios e formações para difundir a agroecologia e as práticas de convivência com o Semiárido através da implementação e apropriação da tecnologia social bioágua.

O lançamento aconteceu na sede da Cáritas Regional Ceará, em Fortaleza, e contou com a presença de mulheres das três comunidades da Ibiapaba onde o projeto será desenvolvido: Volta dos Almeidas, no município de Granja; Albino, em Ubajara; e Areia Branca, em Tianguá. As mulheres são o foco desta ação, compreendendo a sua imprescindível atuação para a resistência dos direitos da população do campo, pela defesa da convivência com Semiárido e pela prática da agroecologia como forma de viver melhor em sociedade e com a natureza.

A perspectiva do trabalho com as mulheres é a da valorização de seus saberes e do fortalecimento de sua autonomia e empoderamento político dentro de casa, na comunidade e na sociedade. Durante o debate sobre a identidade visual do projeto, em referência a imagem de uma mulher que segura sobre a cabeça a casa, uma agricultora opinou: “Essa imagem é a nossa realidade. (…) Existe uma responsabilidade muito grande em cima da gente. (…) Tem que cuidar da cozinha, tem que cuidar das crianças, tem que voltar pra roça, tem que cuidar da janta. Tem que fazer tanta coisa, que tenho certeza que ela [a casa] vive em cima das nossas cabeças”. O debate sobre as relações desiguais de gênero começa a partir da reflexão sobre essa condição dentro de casa e já começa pela própria construção de sentidos da marca do projeto Quintais de Maria.

Também estiveram presentes os parceiros que ajudarão a executar as ações: a Cáritas Diocesana de Tianguá, a Escola Família Agrícola da Ibiapaba e o Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Ceará, através do professor Guillermo Gamarra. “O espaço universitário tende a se fechar em si mesmo. Então, essa oportunidade que temos de interagir, de fato, com a sociedade, com os problemas concretos, em busca de soluções concretas, isso humaniza a pesquisa”, afirmou Guillermo durante o lançamento.

Guillermo e a professora Gema Galgani, também do Centro Ciências Agrárias, conduziram uma roda de diálogo sobre produção agroecológica no Semiárido e sobre o protagonismo das mulheres na sociedade e na produção familiar, respectivamente, dando início ao lançamento com reflexões conectadas às propostas de atuação temática a partir do Quintais de Maria.

Para Lourdes Camilo, da Cáritas Diocesana de Tianguá, responsável pela coordenação das ações do projeto nos territórios, a experiência de construção coletiva com as comunidades geralmente faz nascer resultados para além do esperado. “É nisso que a gente confia, nessa construção coletiva”, diz esperançosa, confiando nos impactos positivos que virão. “As mulheres já fazem reuso de água, mas fazem como dá. E o projeto vem possibilitar que esse reuso da água seja, quem sabe, de 100%”, cita. Outro aspecto é o fortalecimento da organização comunitária: “(…) é o caso da Volta dos Almeidas, em Granja, que já vem numa luta de anos pela conquista legal da terra. E fortalece a luta das outras duas comunidades com as outras experiências que já estão sendo trabalhadas: acesso de água para consumo, água para produção, resgate das sementes crioulas…”. A tecnologia social é ao mesmo tempo ferramenta concreta para a vida das famílias e porta de entrada para uma infinidade de mudanças possíveis a partir de uma formação que permita olhar para a realidade entendendo as causas e consequências de decisões políticas, do sistema econômico e do papel do povo na sociedade.

A Fundação Banco do Brasil, patrocinadora do projeto, também esteve presente para prestigiar o lançamento. Antonione dos Santos, gerente de negócios da Superintendência do Banco do Brasil, deu destaque à relevância da proposta e a decisão de apoiá-la: “Chamou muito a atenção da gente o tema, o uso e o reuso de água, pela importância que a gente sabe que isso tem para as famílias (…) e que é tão forte no nosso estado, que nos últimos cinco, seis anos tem passado por severas provas em relação à seca”.

Sobre as ações

O projeto terá uma primeira etapa com intercâmbios em Crateús e Itapipoca, para que as comunidades conheçam de perto o funcionamento do bioágua e os impactos na vida de quem já faz uso da tecnologia.

Posteriormente acontecem as formações modulares sobre protagonismo das mulheres na produção agroecológica; gestão e manejo de Reuso de água a partir do Bioágua; e Produção Agroecológica. Por último, acontece a etapa de implementação da tecnologia em trinta residências das três comunidades, seguida da avaliação coletiva do projeto.

Também será construído um guia didático a partir das vivências ao longo desta ação. Ele ajudará outras agricultoras e agricultores a pensarem sobre os debates a respeito da agroecologia, da convivência com o Semiárido e das relações de gênero e a implementarem por conta própria a tecnologia em suas casas.

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