Estive no I Acampamento Pedagógico Nacional de Juventudes Sem Terra – Oziel Alves Pereira entre os dias 10 a 17 de Abril representando a Rede Estadual de Jovens animada pela Cáritas Ceará. Ao longo desses sete dias acampados, tivemos contato com parte da verdadeira história do Massacre do Eldorado do Carajás em seus 20 anos de impunidade.

Foram tantas coisas boas, ruins, emocionantes, mas talvez a melhor forma de relatar alguma coisa seja de maneira cronológica. No dia 08 de abril, um grupo formado por integrantes do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) e do Levante Popular da Juventude dos estados do Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte compuseram os tripulantes do ônibus representando o Nordeste no acampamento.

Chegamos a Eldorado do Carajás as 6h da manhã do dia 10 de abril. A partir daí, trabalhamos, sofremos e conhecemos um mundo totalmente hostil as nossas realidades.

A partir das 17h do dia 10 demos início a nossa programação, onde todos os dias às 17h pararíamos a pista para um ato durante 21 minutos para lembrarmos os 19 mortos ali e outros três mortos em consequência do massacre mais tarde. Nos Atos presenciamos místicas emocionantes, fazendo memória àqueles que foram vítimas naquela tarde de 16 de abril de 1996. No fim dos atos, nos reuníamos para cantar, dançar e reforçar nossa força com gritos de ordem.

Pelas Noites Culturais tivemos uma vasta programação. Em todas elas fomos acolhidos com shows de bandas locais e das cidades vizinhas que tocaram de tudo. No 2° dia de Acampamento (11/04) houve a exposição de fotos, muitas delas inéditas dos dias que se seguiram ao dia do Massacre, mostrando a angústia daquele povo. Tivemos também no 4° e 5° dia (13 e 14/04) o Festival Internacional de Cinema da Fronteira, pelo qual assistimos a documentários muito ricos a respeito da luta por terras em suas diversas formas.

Durante as manhãs tínhamos reuniões de NBs (Núcleos de Base), plenária geral com temas específicos tratando da conjuntura social e política atual.

Pelas tardes seguimos com plenárias, e nos 3°, 5° e 6° dias de acampamento (12,14 e 15/04) tivemos oficinas de percussão, dança e teatro, que culminaram nos atos da pista nos dias que se seguiram. No 4° dia fizemos uma marcha em Curionópolis (40 km de Eldorado do Carajás), cidade onde os corpos das vítimas foram velados e sepultados. Durante toda a marcha seguimos em disciplina, sempre lembrando da história que ocorreu ali há 20 anos.

Entre tudo o que eu vivi ali tenho muitas coisas para ressaltar, como: participar de um evento tão rico de sentimentos, valores faz você repensar naquilo que você acredita ou até mesmo vive. Conviver com uma juventude tão centrada, com pensamentos e ideologias tão concretos sem deixar de lado seu espirito de jovem também te faz pensar: “Eita, Fulano devia estar aqui pra ver isso!”. E foi isso que eu pensei em toda a viagem, que eu tive uma oportunidade que me deu novos olhares para as minhas ações e as pessoas a minha volta estão muito limitadas a respeito dessas outras realidades. Eu tenho que partilhar isso com o meu povo, e desde a minha chegada fica difícil falar de tanta coisa numa só conversa. Outra coisa linda que é um ponto essencial pra organicidade de um grupo, principalmente de Jovens: Espirito Socialista! Vivemos isso, e nos cobrávamos quando não, pois se todos pensássemos no seu próximo tudo daria certo sem sombra de dúvidas, independentemente das suas ações.

Na nossa volta pra casa, além da tristeza da despedida, tivemos um balanço geral do acampamento com o povo do ônibus. Muitos lembraram as dificuldades como os mosquitos, as constantes mordidas de formigas, a falta de saneamento básico pra todos, a falta de água, a estrutura básica de barracas. Mas foi lembrado que saímos das nossas casas não para ter o mesmo conforto, mas que iríamos sair da nossa zona de conforto onde naquele abril de 1996 centenas de famílias acamparam sem ter uma barraca pronta para dormir, água potável, comida para todos… e resistiram ali, sem descanso e passando por dificuldades muitas vezes inimagináveis. O que poderíamos pensar então é que as dificuldades só podem ser somadas ao nosso crescimento pessoal, a nossa resistência. Por fim, o que outros tantos disseram foi: Que não mude nada! Que não mude a nossa vontade de aproveitar cada segundo, seja trabalhando, seja curtindo, pois só a gente sabe o quão engrandecidos voltamos pra casa por cada detalhe vivido nessa experiência.

Agora só posso agradecer a oportunidade única que vocês – MST e Cáritas Ceará – me proporcionaram. No início não dava pra ter uma noção clara do que me esperava, mas mesmo assim fui aberta às coisas que viriam pela frente, e devemos ter essa ideia de não nos prender as nossas limitações, aos nossos medos e sim vivê-los acima de tudo.

Axé, Awerê, Aleluia, Amém!

Bruna Salvino mora no assentamento Valparaíso, em Tianguá, e integra o grupo Jovens Organizados Construindo História (JOCH). Participa da Rede Estadual de Jovens articulada pela Cáritas Ceará, através da qual foi convidada a participar do Acampamento do MST em Eldorado dos Carajás. 

 

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