Cada semente crioula que se planta na terra é força de resistência. Não é possível saber hoje quantas espécies de sementes da nossa reconhecida biodiversidade brasileira se perderam com cruzamentos e outras modificações genéticas consequentes de um conjunto de técnicas que tomaram o meio rural pelo processo intitulado “revolução verde”. Uma promessa de criar sementes mais resistentes que rendessem maior produção, aliada à fertilização dos solos e usos de máquinas. O que se viu, no entanto, foi um intenso desmatamento para o monocultivo, a proliferação de pragas resultante do desequilíbrio ecológico, e, por sua vez, a intensificação de uso de venenos. A resistência diante de tal impacto imensurável surgiu da sensibilidade de mulheres e homens que tomaram para si a defesa da natureza e a vontade de curá-la das feridas abertas pela inconsequência capitalista.

Mística de abertura do Encontro Cearense de Convivência com o Semiárido e Agroecologia.

O agricultor Aderbal de Moura foi um deles. Depois de tanto tempo trabalhando pelo sistema de queimadas, o modelo que passou a ser convencional, se viu perdido, junto com tantos outros, diante de uma produção que não vingava. “Eu fiquei devendo muito à natureza”, confessa durante a apresentação do passo que deu em seguida: a sua experiência com a Rede de Agricultoras e Agricultores Agroecológicos dos Vales do Curu e Aracatiaçu. Aderbal e outras 200 pessoas estavam reunidas no Encontro Cearense de Convivência com o Semiárido e Agroecologia, no Centro de Treinamento de Sobral (Cetreso), para dividir e renovar a convicção de que a resistência que representam nos mais de 40 municípios em que vivem é a verdadeira revolução que podem fazer pela natureza e pela sociedade.

O encontro aconteceu entre os dias 24 e 26 de novembro, fruto da construção coletiva, articulada pelas Cáritas Diocesanas de Sobral e Itapipoca e Cáritas Regional Ceará, que envolveu representantes das comunidades e instituições da Rede de Intercâmbio de Sementes (RIS) da região Norte e das que compõem o Fórum Cearense pela Vida no Semiárido (FCVSA) da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), além do Movimento Ceará Agroecológico, do Núcleo Tramas da Universidade Federal do Ceará e de outros movimentos sociais e instituições de pesquisa e ensino.

Lançamento da exposição fotográfica Sementes da Vida.

Inspiradora foi também a experiência de Ivania Cavalcante e Manoel Inácio, do movimento Ciclovida. De Pentecoste pelo Ceará ultrapassando fronteiras nordestinas e brasileiras para os vizinhos latinoamericanos, de bicicleta, em busca de sementes crioulas. Caíram em si quando perceberam que não estavam plantando autonomia para a classe trabalhadora, cultivando verduras com sementes transgênicas, ainda que afinados com a agroecologia. A viagem lhes fez testemunhar a devastação que se espalha em todo o território da América Latina pelo agronegócio. Reafirmaram em suas consciências o quão valorosa cada semente crioula é e o quão alentador foi conseguir encontrar tantas agricultoras e agricultores guardiões nos mais diferentes lugares percorridos. “Vimos novas gerações numa outra perspectiva de convivência”, conta Ivania, falando de esperança pulsante para quem tiver dúvida de que muito ainda pode ser feito. Na viagem de retorno foram dividindo as sementes encontradas, num ato simbólico e concreto de espalhar resistência agroecológica.

O simbolismo se fez presente no encontro, em cada detalhe do ambiente, com a instalação de réplica de uma casa de sementes comunitária e uma horta candeeiro. Fez-se para fora dos muros do Cetreso, com a realização da feira de intercâmbio de sementes e da feira de economia solidária na praça do Arco, com produção baseada na agroecologia e nos princípios da solidariedade e comércio justo. Com a cultura popular nas tradições artísticas do reisado da comunidade de Ingá, de Santana do Acaraú, e do grupo de leruá (maneiro-pau) da comunidade de Serra Verde, Sobral, que se apresentaram durante a feira. Na força da comunicação popular na exposição fotográfica e no vídeo Sementes da Vida, organizados por Ivo Sousa (DocSertão) e Erivan Silva (Cáritas de Sobral) e lançados na manhã do primeiro dia; da relatoria ilustrada das explanações e dos debates que vivenciamos durante todo o encontro, e da roda de discussão que fizemos para comunicar um semiárido agroecológico. Estava na mística de abertura com a entrada dos símbolos da luta pela convivência nas mãos da juventude camponesa; esta que terá a responsabilidade de levar adiante a resistência. E na mística de encerramento, com a grande ciranda que nos interliga, característica da nossa e de tantas lutas.

Feira de intercâmbio de sementes crioulas na praça do Arco (Sobral)

O encontro possibilitou ainda trabalhos em grupo para construção de estratégias coletivas de fortalecimento dos mais variados aspectos da agroecologia e da convivência e estratégias específicas para mulheres, jovens e povos tradicionais (quilombolas e indígenas) do Semiárido visando a conquista de direitos e a superação das opressões que vivenciam. Um documento final com as análises e propostas elaboradas pelos grupos foi apresentado no espaço de diálogos e convergência, no qual participaram representantes do poder público: Marcelo Araújo, analista da Embrapa; Cássio Trovatto, coordenador da Secretaria da Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA); e Itamar Lemos, coordenador de Desenvolvimento da Agricultura Familiar da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA).

O intuito era possibilitar o diálogo direto entre sociedade e poder público e tentar o comprometimento na elaboração, execução e fortalecimento de políticas públicas. De forma geral, tivemos como resultado a necessidade de participação mais efetiva na definição de características e metodologias das políticas que direcionem a defesa da agroecologia na ação do Estado. E a sempre necessária pressão popular frente aos retrocessos políticos atuais, como a tentativa da ministra da Agricultura, Kátia Abreu, de deslegitimar e inviabilizar o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (PRONARA), e sua influência direta em projetos de lei no Congresso para tentar afrouxar a Lei de Biossegurança com a aprovação das sementes transgênicas Terminator.

Para saber mais sobre o encontro acesse a fanpage da Cáritas Diocesana de Sobral e da Cáritas Regional Ceará.

Por Raquel Dantas, comunicadora popular da Cáritas Ceará e da Rede de Comunicadoras e Comunicadores do FCVSA/ASA. Fotos de Lívia Teixeira, Monaiane Sá e Daniel Lamir. 

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