“O campo é o lugar onde temos as melhores vivências.
(Eduana Maria da Silva – militante da PJMP)

O dia raiou movimentado e cheio de boas energias no Assentamento Leite, na manhã do sábado, dia 03 de outubro. Jovens das comunidades e grupos do município de Bela Cruz iam se achegando para participar do 2º Encontro Municipal de Juventudes. Cada jovem trazia na bagagem expectativas de partilharem a vida de suas comunidades e os desafios de permanecerem no campo.

A organização do encontro ficou por conta da Coordenação Diocesana de Juventudes, composta por representantes dos grupos acompanhados pela Cáritas, através do Programa Infância Adolescência e Juventude (PIAJ). O encontro propôs uma reflexão sobre qual a identidade da juventude do campo partindo dos aspectos de vida pessoal, familiar e comunitária. Desse diálogo, perceber a importância da organização dentro desses espaços onde as juventudes sejam sujeitos participantes, fazendo valer sua condição de jovem, mulher e homem do campo.

Acolhidas/os pela sombra do Jucazeiro na mística de abertura, as/os participantes foram convidadas/os a refletir a “espiritualidade Franciscana” em sintonia com São Francisco de Assis – celebrado no dia 4 de outubro, Papa Francisco e o Rio São Francisco. Três referências que nos remetem a vida de entrega e serviço aos mais humildes. O “Velho Chico” que deságua pelo Nordeste aponta para a necessidade de zelar pela sagrada água e denunciar as grandes obras que agridem os recursos naturais.

Três experiências com juventudes foram apresentadas para dar o pontapé ao diálogo da identidade camponesa. O jovem Arlene, secretário de juventude da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras do Estado do Ceará (Fetraece), falou do projeto de desenvolvimento rural territorial e sustentável realizado pela instituição junto aos sindicatos rurais da região de Sobral. Uma das preocupações partilhadas é a saída das juventudes do campo para a cidade em busca de melhores condições de vida e trabalho. Tal êxodo é fruto da falta de investimento em políticas públicas que se adéquem a realidade desse seguimento. A federação tem prestado acompanhamento aos grupos e oferecido formações sobre convivência com o semiárido e produção orgânica e agroecológica, visando a sucessão agrícola dentro das comunidades.

A segunda partilha foi contada a partir da vivência da jovem Eduana Maria, coordenadora diocesana da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP). A pastoral vive uma mística e espiritualidade a serviço da construção de uma sociedade possível, justa e mais humana conforme o modelo de Jesus Libertador. Uma das bandeiras de luta as quais a jovem se empenha junto aos grupos acompanhados é a garantia dos direitos da juventude e a prática de uma vida militante e profética. Por fim, Monaiane Sá, da Cáritas Diocesana de Tianguá, partilhou as ações do PIAJ no âmbito regional, ressaltando o processo de atividades realizadas desde 2011, ano em que a instituição passa a dar um novo olhar para a juventude, proporcionando autonomia para que os jovens acompanhados participem dos espaços de decisão e construção do programa junto à entidade. A jovem apresentou elementos como a criação da Rede de Juventudes, composta por jovens acompanhadas/os pela instituição nas oito dioceses que fazem parte do Regional Ceará.

Essas informações ajudaram os jovens a definir sua identidade, com relevância o jeito de ser e viver, os costumes, o amor pela natureza, uma melhor qualidade de vida, o exercício da solidariedade e a consciência de ser filho e filha de agricultor e agricultora na família e a vivência na comunidade.

O espírito de criatividade foi manifestado nas oficinas realizadas no encontro. A oficina de fotografia foi facilitada por Thainá, jovem da comunidade São José que repassou técnicas aprendidas na formação proposta pelo projeto ECOFORTE, do qual participa. O objetivo era fotografar o semiárido a partir da visão da juventude, contrapondo o retrato feito pela grande mídia. As outras oficinas foram de batucada, animada por Eduana da PJMP, como forma de comunicação popular; e o Teatro do Oprimido, em que as/os participantes puderam expressar a vida da juventude camponesa por meio da arte. Quem facilitou esta oficina foram as jovens Nágila e Nara, ambas residentes do assentamento e participantes do grupo de teatro local.

Os saberes e vivências do assentamento foram partilhados em três visitas de campo a espaços de inserção da juventude, sendo eles os principais atores da organização ou participantes secundários. O viveiro de mudas da juventude, implantado em 2014, que apesar do pouco tempo de implantação já representa uma fonte de trabalho e renda local. O quintal produtivo familiar manejado pelos jovens Fernando, Regina Kátia, Júnior, Hernando e Marlon, filhas e filhos de João Batista e Maria Nizia; e a Casa de Sementes comunitária, que tem atualmente 31 sócias e sócios. Desses 10 são jovens. Para o presidente da casa de semente, Sr. José de Fátima, a participação da juventude está fortalecendo a casa. “Eles tem uma participação valiosa”, afirma.

No findar do encontro, o compromisso com a vida no campo foi reafirmada, assim como a necessidade dos jovens de dialogarem sobre temas específicos que permeiam a vida das comunidades, como o debate sobre uma educação que seja contextualizada com a vida campesina e juvenil e o aprofundamento e pesquisa sobre a região onde vivem, no sentido de conhecerem os aspectos territoriais de suas comunidades.

 

Por Monaiane Sá, comunicadora popular da Cáritas Diocesana de Sobral e integrante da Rede de Jovens articulada pela Cáritas Regional Ceará.

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