Juventude que ousa lutar,
constrói o poder popular!

Falam por aí de uma juventude que não se importa com o mundo ao redor. Que perdeu a ousadia, a coragem, o espírito tão caro e próprio da fase das revoluções. Estigmatizam e criminalizam a juventude enquanto lhe podam a energia vital e lhe formatam para que seja peça da engrenagem do universo desigual, acomodada, vendada e paralisada. E caso se rebele, a violência do Estado e da sociedade será sempre a resposta, ainda que a violência de sua própria conduta seja apenas o reflexo de que todos nós, jovens ou não, é que perdemos a coragem e a virtude de se importar com o mundo ao redor.

Nós falamos de uma juventude que ousa sonhar, mesmo em tempos em que vociferam aos quatro cantos que sonhar é em vão! Reconhecemos os rostos de uma juventude que ousa lutar, mesmo em tempos em que ameaçam e oprimem para acreditarmos que lutar é em vão! Mas dos quatro cantos existe a contracorrente, nascida da força-motriz de todas as lutas: a resistência contra todo e qualquer tipo de opressão. No Cariri, no Brasil, na América Latina, nesse mesmo instante que nos une, povos de territórios, crenças e cores distintas se conectam pelo ato de resistir e crer na existência de novas relações humanas.  E a juventude lá está!

No pé da serra do Araripe, no Cariri cearense, cidade de Crato, as juventudes (múltiplas que são) de várias partes do Ceará e de outras regiões do Brasil – Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Paraíba, Rio Grande do Sul, Maranhão, Alagoas e Sergipe – se integraram para vivenciar o Intercâmbio Nacional de Juventudes da Cáritas (realizado entre os dias 23 e 26 de julho) e discutir sobre tudo que aí se relaciona sob o tema “Juventudes e Resistência: semeando o bem viver na construção do projeto popular”.

Mística de abertura do Intercâmbio Nacional de Juventudes do Crato

 Organizado pela Rede Estadual de Jovens ligados a Cáritas Ceará, a Cáritas Diocesana de Crato e a Cáritas Regional Ceará, além da ativa e importante participação dos coletivos de juventudes parceiros – Pastoral da Juventude (PJ), Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), Levante Popular da Juventude, Pastoral da Juventude Rural (PJR), Grupo Urucongo de Artes, dentre outros -, o Intercâmbio quis provocar a formação política, a identificação dos jovens com as lutas de seus territórios e problematizar o papel das juventudes nos desafios políticos e socioeconômicos que se desdobram em consequência do modelo de desenvolvimento no qual estamos inseridos em esfera global, com consequências peculiares no lugar onde vivemos. O campo e a cidade dos países da América Latina, que vivem a faceta perversa do tão propalado desenvolvimento às custas da destruição da natureza e dos impactos aos povos, na sua soberania alimentar, no direito à terra, à água e à vida, em nome (sempre) de um suposto interesse nacional e resguardada por uma falsa responsabilidade socioambiental. O histórico de violações aos direitos humanos se assemelha e se repete por todo o nosso chão.

Nos espaços de formação do encontro, dentre eles o painel de abertura sobre o tema e uma roda de conversa para contemplar a discussão entre todas e todos, a juventude do Intercâmbio desenrolou narrativas, críticas e indagações sobre as lutas, desafios e estratégias para a articulação da juventude. “Estudar é um ato revolucionário”, sentencia Crys Kelly Alves, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), como ferramenta transformadora imprescindível para qualquer processo de luta. “Dançar o coco, expressão cultural de nossa identidade territorial, também é um ato revolucionário”, defende Cristina Leandro, da comunidade de Chico Gomes, no Crato, integrante do grupo Urucongo de Artes. Afinal, quando se quer descaracterizar um povo, procura-se logo destruir a sua cultura. Outros tantos temas transbordaram: reforma política, educação contextualizada no campo, reforma agrária, coerência entre teoria e prática na vivência da agroecologia, soberania alimentar e hídrica, construção de igualdade nas relações de gênero, importância sobre a memória e história como processo de resistência através da identidade, violação aos direitos dos povos tradicionais (quilombolas e indígenas), criminalização e extermínio da juventude negra, violência urbana, racismo. Conhecer, trocar informação e debater são também atos super revolucionários.

Roda de conversa sobre os desafios da juventude no contexto atual

A vivência faz parte desse processo. Pelo Intercâmbio, conhecemos quatro comunidades; duas que vivem a resistência a grandes projetos – o Eixão das Águas, na comunidade do Baixio das Palmeiras, e a ameaça de implantação de um aterro sanitário na comunidade de Gravatá, em Caririauçu – e outras duas que vivem a resistência à descaracterização de suas identidades através da autoafirmação de suas culturas – a comunidade Chico Gomes, no pé da Serra do Araripe, e a comunidade Santo Antônio, com o Grupo Arte e Tradição. É preciso ressaltar o papel dos jovens nessas comunidades. Algumas mais consolidadas e partindo deles o próprio processo de organização; outras ainda com o desafio constante de envolver mais jovens. Os caminhos não estão dados e é por isso que nos encontramos. “O debate e a vivência sobre como estão acontecendo as formas de resistência ao sistema é importante para as juventudes entenderem como funciona os veículos de solidariedade e sustentabilidade quanto ao processo de resistência dos grupos (de jovens) já existentes nas comunidades. Para que nós, como jovens, possamos conhecer e continuar com as ações de mobilização e construção desses grupos e dos projetos para os mesmos”, é o que pensa Valéria Leite, jovem de Potiretama, articuladora do Grupo Jovens Transformadores Solidários e integrante da Rede Estadual de Jovens.

“Ao passo que as juventudes reinventam estratégias, metodologias de atuação nos espaços onde incidem – e se entrelaçam nas causas comuns, vai se tecendo uma rede cada vez mais sólida e diversa, repleta de boas energias e sonhos que seguem resistindo diante das adversidades”, reflete Paulo José, agente da Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza, articulador da Rede Estadual de Jovens e, antes de tudo, como mesmo diz, jovem da comunidade Jardim Iracema que foi acompanhado pela Cáritas na capital cearense. É nessa linha que damos sentido e seguimos com nossa ação!

A Rede Cáritas reforça os gritos das juventudes contra seu extermínio, contra a sua criminalização, contra a sua descaracterização. Os gritos que foram ecoados em ato público nas ruas do Crato durante o Intercâmbio para dizer que somos contra a redução da maioridade penal e queremos o fim do extermínio dos nossos jovens negros e moradores da periferia. Quando clamamos por um mundo diferente, em que a igualdade, a solidariedade, a justiça e os direitos sejam vividos em plenitude, o construímos com as juventudes, porque é dela que a semente dessa construção transformará o amanhã numa grande primavera.

Por Raquel Dantas, comunicadora popular e articuladora da Rede Estadual de Jovens da Cáritas Ceará

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