Territórios: povo irmão!
Terra e água em nossas mãos.

Dia 02 de agosto Viçosa do Ceará será território da luta dos povos de muitos chãos que fazem a igreja no Ceará. Será ainda um espaço para manifestar os sinais de opressão e celebrar as conquistas frutos da resistência. Para fortalecer este espírito de romeiras e romeiros foi que dia 27 de junho a Igreja Particular de Tianguá representada por membros do clero, paroquianas/os e representantes de movimentos e pastorais se reuniram no Centro de Pastoral em Ubajara para realizar um seminário sobre a romaria.

A Romaria este ano quer falar de territórios. “Apostamos no processo de preparação para a Romaria da Terra e das Águas para realizar um amplo debate sobre a necessidade de fortalecer as lutas em defesa dos territórios. A terra e a água são dois elementos fundamentais na composição do território, mas este envolve também as pessoas, seus modos de vida, sua cultura, suas formas de produção e reprodução, seus mitos, suas crenças”, trecho da carta de Thiago Valentim, da comissão Pastoral da Terra – CPT, destinada a toda a igreja que se prepara para esta romaria. A carta foi apresentada por Lourdes Camilo, da Cáritas Diocesana.

Seminário sobre a Romaria da Terra e das Águas em Tianguá

A Diocese de Tianguá é marcada por um cenário de processos de luta por terra e água. A Pastoral Social da Diocese teve um papel fundamental na organização de comunidades tradicionais. São povos de localidades rurais e urbanas, terra de quilombolas, índios, agricultores, catadores, pescadores e outros mais. Dentro da discussão foi colocada a importância de perceber quais aspectos que caracterizam o território. Nesse sentido foram apresentadas algumas experiências acompanhadas pela Pastoral Social no enfrentamento dos sinais de opressão. Irmã Maria Luisa trouxe presente as ações de intervenção realizadas em três comunidades tradicionais, sendo elas: Três Irmãos, no município de Croatá, reconhecida desde 2008 como comunidade remanescente de quilombo pela Fundação Palmares. A comunidade indígena Gameleira da etnia Tapuya Kariri, que tem seu território dividido entre dois municípios, 80% pertence a São Benedito e 20% a Carnaubal, o que representa uma duplicação no conflito com o poder público das duas cidades. Desde 2009 a comunidade luta pela demarcação de suas terras que foram tomadas por fazendeiros de monocultura, no lado pertencente a São Benedito. E ainda, a luta da comunidade pesqueira situada na praia do Xavier, em Camocim. Hoje o trabalho e a vida dos pescadores são colocadas em risco devido à implantação forçada de parques de energia eólica. Apesar de ser uma energia caracterizada como ambientalmente limpa, a sua adoção tem causado grande impacto pela expulsão das comunidades de seus territórios, deixando uma mancha obscura na vida dos sujeitos atingidos. “Estas são algumas das realidades dos muitos territórios que compõe esta diocese. Terra de gente que briga pra existir”, concluiu a religiosa.

A partilha foi fortalecida com a fala de Felipe Sanches, também da Pastoral Social, que apresentou um pouco das questões de conflito de terra dentro das comunidades. Segundo ele, “a terra sempre foi palco de brigas. Desde os primórdios se buscava florestas e territórios próximo às fontes de água para produção. A luta começou, e como consequência, os conflitos também se iniciaram”. Acrescenta ainda que, terra, água e ar são os três elementos básicos à vida, portanto, não podem ser privatizadas. Devem antes ser zeladas e colocadas a serviço do bem comum. A apresentação destas realidades gerou um debate entre os participantes. Antônio Rocha, de Tianguá, ressaltou a necessidade de motivar um movimento pastoral que mude as estruturas do discurso da sociedade frente aos desafios diários na luta pela terra e pela água.

“Terra e água em nossas mãos” é o grito desta romaria. Após discutir sobre a terra como elemento onde a vida dos sujeitos pulsa, a água, que gera a vida nos territórios, foi pautada por Alessandro Nunes, do Secretariado Regional da Cáritas. Em sua apresentação apontou elementos que norteiam a atual situação das águas no estado. Após quatro anos de estiagem prolongada no Semiárido, as diversas regiões vivem hoje uma situação de colapso hídrico. “Dez municípios só têm água até julho. Quando o segundo semestre chegar, o aporte hídrico será (ainda mais) comprometido. Até outubro, 20 municípios estarão com açudes secos e outras fontes terão que ser encontradas”, afirma. No território Ibiapabano, a realidade do açude Jaburú também é gritante. Segundo dados da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (COGERH), o reservatório está com menos de 23% de sua capacidade total. Alessandro afirma que é importante questionar a quem se destina as águas do açude e como elas estão sendo distribuída nos territórios, tendo em vista a grande quantidade de água destinada a irrigação de hortas de médio e grande porte produtivo a partir da agricultura convencional e de grandes empresas presentes no entorno do reservatório. Esse é um desafio e uma opressão territorial que deve ser denunciada. É preciso ainda perceber os fatores que a envolvem a problemática da água e que a ela estão intrinsecamente ligadas, como a mata ciliar e as florestas que progressivamente e em uma velocidade exorbitante estão sendo destruídas. Perceber também que além do desperdício da sociedade civil há um (ab)uso desmedido pelos grandes projetos.

Diante de todo este cenário de opressão, se faz necessário uma resposta imediata a partir das bases que são oprimidas. A romaria é um espaço estratégico para que os gritos silenciados pelos ruídos do sistema sejam ecoados e ouvidos. Nesse sentido, Alessandro chama a atenção dos participantes para a necessidade de mobilização dentro das paróquias e comunidades para a participação ativa na romaria.

No findar das reflexões, a equipe organizadora do seminário composta pela Coordenação Diocesana de Pastoral na pessoa de Pe. Erlando, falou dos encaminhamentos quanto à organização do dia da Celebração. Pe. Justino, Pároco de Viçosa do Ceará, que acolherá as romeiras e romeiros finalizou este encontro de partilhas, anúncios e denúncias dizendo que: “A romaria da terra e das águas é o dia da celebração da luta, e não de começar a lutar ou de terminar. É um momento profético no sentido de nos despertar para essas realidades.”

É neste desejo de celebrar a caminhada profética da igreja caminhante que a Diocese de Tianguá se mantém em marcha nos muitos territórios onde a vida resiste e se prepara para acolher todas as romeiras e romeiros que desde já estão a caminho nas lutas e resistências em seus territórios.

Monaiane Sá, comunicadora popular da Rede Cáritas Ceará

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