Foi no embalo da cantiga que diz “eu sou uma semente que nasceu pra crescer, me dê uma chance que hoje quero viver”, que aconteceu o Encontro de Avaliação e Planejamento da Rede de Intercâmbio de Sementes/RIS – Microrregião de Sobral entre os dias 21 e 23 de janeiro, em parceria com a Cáritas Diocesana de Sobral.

Cerca de 100 participantes, entre camponeses/as e representantes de instituições parceiras, como STTRs (Sindicatos de Trabalhadores/as Rurais), ESPLAR, TRAMAS/UFC, Instituto Carnaúba e Cáritas de Itapipoca, foram envolvidos pela história de homens e mulheres que com fé e união lutaram e resistiram para conquistar aquele chão que nos acolhia. O assentamento Morgado, a 10 km do município de Massapê.

Começamos o encontro pela história de luta da comunidade. A letra da canção que diz “já estamos nesta terra e não vamos mais sair, nosso lema é ocupar, resistir e produzir”, composta por membros do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), conduziu a luta de 24 famílias de assentados/as pela terra. Hoje, coletiva e com mais 10 agregados.

O encontro da RIS teve como objetivo avaliar as ações de 2014, planejar ações para 2015 e refletir sobre a problemática dos agrotóxicos na vida das comunidades, a fim de fortalecer a luta pela preservação da vida. O estudo foi conduzido por Renata Maia e Bruna Nunes, integrantes do grupo TRAMAS – Trabalho, Meio Ambiente e Saúde, da Universidade Federal do Ceará.

Os relatos dos/as participantes fortaleceram a reflexão sobre o tema, criando um diálogo de saberes e experiências muitas vezes tristes por se tratarem da violação de direitos contra o bem viver, gerada pelo uso de venenos que causam morte no semiárido e aprisionam famílias inteiras a uma prática de destruição. Como afirma Renata Maia, do grupo TRAMAS, “os agrotóxicos violam a lei natural da vida. A juventude está sendo raptada pelo agronegócio, assim como os agricultores pelos agrotóxicos”. Foram apresentadas as consequências do uso dos agrotóxicos na vida de famílias camponesas que convivem com o agronegócio no Vale do Jaguaribe, e ao mesmo tempo os impactos para a saúde humana e para a própria terra.

Encontro da RIS/Microrregião Sobral no assentamento Morgado (Foto: Monaiane Sá)

E por falar em juventudes, os jovens merecem destaque no encontro. Cerca de 20% dos participantes eram jovens, com idade entre 15 e 29 anos. Participaram e contribuíram nas discussões trazendo suas experiências como jovens agricultores e agricultoras. E quem fala da importância de estar no encontro representando a juventude camponesa é a jovem Gildinete Higino, de 21 anos, técnica em agropecuária pela Escola Família Agrícola (EFA) Dom Fragoso: “Chegar num encontro como esse e me deparar com muitos agricultores/as, afirmar que eu sou uma jovem agricultora, para mim é um orgulho. Ser uma jovem diferente e estar contribuindo com minha família na agricultura, a fazer agricultura e ter o privilégio e autonomia de dizer que sou agricultora. É uma forma de mostrar que tenho orgulho de ser agricultora, de que posso estar no campo produzindo sem precisar sair para a cidade.” Estavam presentes também jovens da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) de Sobral, da EFA Ibiapaba e do grupo de jovens da comunidade Leite/Bela Cruz. Envolver as juventudes é ainda um grande desafio, mas que vem ganhando ênfase dentro dos planejamentos realizados em cada Casa de Sementes e demais organizações comunitárias.

Os olhares, sorrisos e vozes de cada um e cada uma manifestados durante o encontro foi revelando a esperança de um povo que resiste e não desiste de lutar. Mesmo sentindo as dores de uma estiagem prolongada o povo não desanima e segue a viver com alegria no Semiárido e a fazer votos otimistas para o futuro. E foi neste sentimento de esperança que os camponeses e as camponesas avaliaram o ano de 2014 e teceram o planejamento para o ano de 2015. Nos trabalhos em grupos o que não faltou foram boas ideias e sorrisos embalados pela alegria contagiante de construção coletiva.

Dentre as atividades se destacou o desejo de celebrar a festa da colheita como forma de agradecer os frutos do trabalho e partilhá-los entre os irmãos e irmãs de caminhada. Fortalecer a discussão local sobre as implicações do uso de agrotóxicos e motivar o surgimento de novas Casas de Sementes nas comunidades, também foi apontado como meta. Seu José Lauriano, de 76 anos – “filho de Massapê”, mas residente no Assentamento Morgado há 24 anos – destaca em sua fala a importância da preservação das sementes nativas, garantindo a soberania alimentar e o quanto as Casas de Sementes crioulas tem contribuído para garantir esse direito.

O encontro foi marcado também pelo lançamento do Projeto Sementes da Vida – ECOFORTE, que será executado pela Cáritas Diocesana de Sobral, e o Projeto de Sementes – ASA/MDS, que será executado pela Cáritas Brasileira Regional Ceará. Conduzidos por seus respectivos coordenadores, Erivan Camelo e Lourdes Camilo. Os projetos vão atuar no fortalecimento da Rede de Intercâmbio de Sementes/RIS.

Uma roda de conversa foi composta por representações das instituições parceiras – ESPLAR, STTR DE Massapê, Fetraece, Instituto Carnaúva, Secretaria de Agricultura de Massapê -, uma representação de Casas de Sementes e um representante do Projeto Paulo Freire. Cada projeto foi apresentado e refletido pelas entidades executoras, pelas entidades que compuseram a roda de conversa e com os/as representantes das Casas de Sementes presentes no encontro. Todas as falas apontaram para construção de parcerias que possam garantir a articulação e mobilização do/as camponeses/as e as ações estruturantes de cada projeto que tem em vista a soberania alimentar através do resgate, da preservação e multiplicação das sementes Crioulas.

A troca das sementes que geram vida, esperança e solidariedade deram o impulso ao findar do encontro. Em um clima fraterno os camponeses/as partilharam mais que sementes, partilharam as histórias vivenciadas por cada um/a em seus espaços. Cada semente falava de luta, de resistência e de esperança. Na comunhão da troca, a certeza de partilharem a mesma luta, resistirem na mesma esperança e de lançarem os mesmos gritos!

Por Lívia Teixeira, comunicadora da Cáritas Diocesana de Itapipoca, e Monaiane Sá, da Cáritas Diocesana de Sobral

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