Sentados sobre o chão de mosaico colorido e olhos atentos ao vídeo projetado na parede branca do Galpão Cultural. “Chega, fulano, que vai começar o filme!”. Faz pouco tempo, mas a casa na entrada ainda não estava pintada Comunidade Alto São João. Mas não demora para que os pequenos se reconheçam entre os personagens e o lugar da história. “Olha lá, minha prima! E aquela ali puxando a água do poço é minha mãe, sabia? O xiqueiro do papai!!!”, exclama sucessivamente a Deise, de 8 anos. De instante em instante outro pequeno aponta para a cena, e ri, e se vê nas imagens. Que instigante e divertido é ver-se num filme!

O roteiro nasceu da formação em audiovisual para jovens pelo Programa Infância, Adolescência e Juventude (PIAJ), da Cáritas Ceará. A turma se deparou com a realidade da comunidade em visitas e entrevistas com moradoras e moradores e, em especial, com os catadores e catadoras de materiais recicláveis e seus filhos e filhas. O que pensavam essas crianças sobre a realidade em que viviam? Como se sentiam diante dos comentários ofensivos dos colegas na escola sobre o trabalho dos pais no lixão?  E como se sentiam os pais diante dos olhares de repreensão e preconceito dos outros moradores da cidade? Uma realidade tão distinta de suas próprias vidas e uma história coletiva a ser contada e desestigmatizada. Esse foi o caminho para que “O Alto São João e o menino que queria ser Deus” nascesse.

 

A narrativa fica por conta dos próprios moradores. José Alderi lembra do tempo em que ali ainda nem era Alto São João. Chamavam de Tabuleiro e as casas eram espaçadas, cobertas de palha. A subsistência era difícil e vinha da agricultura, do corte de lenha, ou do que fosse possível para garantir a comida no prato. No final da década de 90 o Dnocs desapropriou a área de plantação de feijão, derrubou as cercas, e para lá foi transferido o lixão de Russas. Chico Lira faz as contas e diz que são mais ou menos 20 anos, o mesmo tempo em que tira do lixão o próprio sustento. O outro Chico, o dos Santos, também. “Desde a primeira carrada. Eu não sabia nem reciclar”.

Entre as tantas histórias de Zilvânia, Chico, Dorotéia, um Alto São João que aos poucos foi se organizando e buscando direitos para que os catadores soubessem e reconhecessem o valor do seu trabalho, para que todos os moradores cuidassem da comunidade e para que a vida tivesse sinônimo de dignidade.

O lançamento do documentário aconteceu na noite do dia 18 de dezembro no Galpão Cultural, espaço montado pelo Instituto Nordeste Cidadania (INEC) com a ajuda dos moradores e moradoras da comunidade. Com o fim do ano se aproximando, o Galpão recém inaugurado foi espaço para confraternização e festejo, com apresentação do Boi Mirim e demais ações apoiadas e desenvolvidas por outras instituições que atuam na comunidade, como a Oficarte e a Cáritas.

 

Para assistir ao documentário “O Alto São João e o menino que queria ser Deus” é só visitar a página abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=snFJbvZ8VqI

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