Contrariando nossas impressões de que a cidade poderia estar quente, chegamos à diocese do Crato com o céu carregado de chuva para participar do encontro de avaliação da Rede Cáritas que aconteceu de 19 a 21 de novembro. O momento foi de avaliar os passos dados nesse ano de 2014, trocar experiências e culturas e definir passos prioritários para 2015.

Acolhidos pelo Grupo Urucongos de Arte e ao som de um violino acompanhado da zabumba , pandeiro e violão, o primeiro dia do encontro lembrou antigos benditos e dizeres que resgataram momentos da religiosidade popular e que tocou profundamente cada um dos participantes. Sensação de que o encontro seria regado a boas doses de animação e mística.

No segundo dia os participantes seguiram rumo à pequena comunidade de Cárcara em Potengi, distante duas horas do Crato, para momento de intercâmbio com a comunidade quilombola. Momento de troca, conhecimento, partilha, abertura para conhecer a realidade e cultura de uma comunidade marcada pela história de luta, preconceito, resistência e festa.  Chegamos à comunidade debaixo de chuva, a lama vermelha deixou nossa marca no chão da capela de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do lugar. Aos poucos os moradores foram chegando pelas portas e janelas. Olhares curiosos para saber o que estava acontecendo e de onde vinha àquela gente. Logo as crianças e os jovens foram se encostando e devagarinho, estavam todos na capela para uma roda de conversa e dança do toré.

Sebastião, conhecido como bastião, uma das lideranças fortes da região, relatou com a ajuda de Verônica da Cáritas do Crato e membro do Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec) a história do lugar que já é reconhecida pela Fundação Palmares.

A comunidade que agrega 126 famílias com um total de 410 pessoas há cinco é acompanhada pela Cáritas que atua ajudando nos processos de fortalecimento da identidade e identificando demandas para garantia de direitos. Já conseguiram simbólicas conquistas, no entanto ainda tem muito a alcançar, uma delas é a posse definitiva da terra que está em processo de regularização. Os frutos de melhoria ao longo desses anos podem ser conferidos nos olhos e no relato dos moradores. “Estamos felizes com a visita de vocês, isso só fortalece a gente e a nossa história, relatou uma das mulheres moradoras do lugar”.

Numa comunidade marcada pela presença de muitas mulheres, conhecemos Maria Luíza, de 72 anos, parteira. Ajudou a trazer ao mundo, como ela mesma conta, mais de 192 crianças. “Sou mãe de um bocado dos que estão aqui”, contou. O grau de parentesco das famílias é muito próximo o que fortalece ainda mais a identidade, a mais velha tem 103 anos.  Dona Maria é exemplo vivo da historia de Carcará, ela e outras mulheres alegram as festas com suas gingas e cantigas quilombolas.

Foi uma manhã rica pela diversidade e muito agradável que se encerrou com um grande momento de partilha dos alimentos preparados pela própria comunidade. À noite tivemos um momento de relato do que vimos, sentimos e ouvimos na comunidade e as experiências realizadas pela Cáritas de Crateús, Itapipoca e Crato no trabalham com comunidades tradicionais.

Fortalecidos pela rica troca de experiência do dia anterior, o dia 20, dia da consciência negra, começou com homenagens a Zumbi dos Palmares. Momento forte que fez memória da luta negra pela liberdade e valorização da cultura. Em seguida divididos em grupos os participantes avaliaram a caminhada na rede a partir dos seguimentos: Crianças, adolescentes, e jovens; agricultores/as e produtores/as; catadores/as de materiais recicláveis e Povos e Comunidades tradicionais: quilombolas, indígenas, pescadores/as. À tarde foi realizada a avaliação por prioridades a partir das mudanças percebidas conforme os indicadores. O momento se encerrou à noite com a expressiva dança da quizomba, um gênero musical originário da Angola.

Na sexta-feira houve um painel sobre gestão na rede Cáritas, percepções do conselho ao longo do ano, indicativos e temas para 2015.

Foi um encontro cansativo, porém muito produtivo no tocante as estratégias de ações e indicativos para o planejamento de 2015.

Por Jeane Freitas, comunicadora da Cáritas Regional Ceará

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