O Sertão dos Inhamúns vive a maior estiagem das últimas décadas. Como ocorreu em secas anteriores, dezenas de camponeses e camponesas do Semiárido saíram de suas casas na última semana rumo ao centro da cidade. A grande diferença é que desta vez não foi na condição de pedintes ou retirantes, e sim enquanto feirantes participantes da IX Feira da Agricultura Familiar, realizada na praça da Matriz em Parambu. Mesmo no terceiro ano de seca, essa foi a mais longa de todas as edições, com duração de 23 a 25 de outubro. Além de troca de experiências, formação e divulgação da produção agroecológica e artesanato oriundos do campo, o evento é símbolo de como cidade e campo podem e devem viver em harmonia.

Feirantes e público lotaram a Praça da Matriz

“A gente teria condições de fazer essa feira anual ser mensal, se quiséssemos”, ousa Cícero Soares, presidente do Instituto Bem Viver. Segundo ele, apesar das limitações ocasionadas pelos suscetíveis invernos mais fracos do que a média, agricultoras/es familiares e artesãs/ãos da região teriam produção suficiente para tal. “Numa feira como essa só perde quem não vem”, resumiu Francisca Gonçalves, moradora da Rua da Matriz, em Parambu. Vendedora de artesanatos, ela comemora o intenso movimento em todos os dias. Já Maria das Dores, mais conhecida como Das Dores,  disponibiliza galinhas e ovos caipiras e outros alimentos. Todos orgânicos. Este é um dos principais diferenciais para as feiras comuns, pois toda alimentação vendida ali é saudável.

Outro feirante que se identificou apenas pelo prenome Daniel. Veio do município de Tauá para comercializar produtos fabricados à partir de chifres, ossos e sementes. Anéis, pulseiras, objetos de decoração e uma grande variedade de possibilidades na sua mesa de exposição, feitos a partir do que a natureza descarta, são símbolo das possibilidades criativas e rentáveis em práticas efetivamente sustentáveis. Com animação do grupo de forró pé de serra composto por educandos da Escola Família Agrícola Dom Fragoso, durante o dia, e diversas atrações culturais durante a noite, a feira acaba sendo grande espaço de intercâmbio de saberes e sabores populares.

Presidente do sindicato apresenta seminário temático de meio ambiente

Além disso, também é espaço para busca de conhecimentos. No período diurno foram realizadas oficinas e seminários temáticos, como economia popular solidária, unidades produtivas adaptadas ao Semiárido e meio ambiente. Esta última, inclusive, foi ministrada por Lucas Cavalcante, agente da Cáritas Diocesana de Crateús. “É importante a gente entender que o essencial para a vida não custa caro, e o consumismo imposto por essa sociedade capitalista não degrada apenas o meio ambiente, gerando aquecimento global e outros desastres ambientais, mas também prejudica toda nossa cadeia de relações humanas”, explicou Lucas.

A feira agroecológica de Parambu foi a escolhida para o lançamento do o vídeo oficial da X Feira da Agricultura Familiar e Economia Popular Solidária da região dos Inhamúns/ Crateús, o maior evento do tipo no estado do Ceará, e a mãe de todas as feiras municipais da região como esta em solo parambuense. “Para nós, moradoras e moradores dessa região semiárida, é muito importante divulgar esses nossos frutos, para eliminar de uma vez por todas a imagem equivocada de que Sertão é símbolo de fome. Com políticas de convivência com o Semiárido realizamos uma grande feira regional e outras grandes como essa em âmbito municipal”, argumentou Moizeis Santos, também agente Cáritas e editor do filme.

Exibição do filme sobre a X Feira da Agricultura Familiar de Crateús

“Esse ano o diferencial é que aumentamos a participação de feirantes, e aumentamos em mais um período o tempo de realização do evento. Ano passado a gente terminou ao meio dia do sábado, e dessa vez vamos até a meia noite, sendo esta, mesmo em tempo de estiagem, a maior feira que já realizamos”, comemorou Eliézer Domingos, presidente do Sindicato das/os Trabalhadoras/es Rurais de Parambu, que realizou o evento. Apoiaram a construção do mesmo as cooperativas COOLIMEL, PARAMEL, COAMPPP, além da FECOMP, Ematerce, Secretaria de Desenvolvimento Agrário e Secretaria de Recursos Hídricos e Meio Ambiente de Parambu.

Por Eraldo Paulino, comunicador popular da Cáritas Diocesana de Crateús

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