Pastorais Sociais da Diocese de Crateús em parceria com movimentos sociais vêm se mobilizando para enfrentar de forma organizada e consequente a escassez d’água no Sertão dos Inhamúns/Crateús. Se por um lado a evidente falta de planejamento ao longo do tempo ocasiona falta desse líquido essencial no campo e na cidade, o 4º ano seguido de estiagem prolongada na região nem de longe se parece com secas vividas em outras décadas, graças às políticas de acesso a cisternas, fruto da mobilização popular da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) e à capacitação das pessoas para aprenderem a conviver com esse bioma. Essa foi uma das conclusões do Seminário das Águas realizado no dia 26/09, na sede da Cáritas Dioesana de Crateús.

Uma situação peculiar deste tempo de seca, conforme foi constatado, é que se por um lado a escassez d’água limita a produção e as tarefas domésticas da mulher e do homem do campo, o crescimento desordenado das cidades tem feito a seca ser sentida também nos centros urbanos. Todas as cidades da região vivem racionamento, estão com açudes praticamente esgotados e caso ano que vem o volume das chuvas não seja suficiente, obras como adutora no açude Araras em Varjota pode garantir água para Nova Russas e Crateús; e outra intervenção do mesmo tipo do açude de Arneiroz para assistir Tauá, se apontam como possíveis soluções.

Contudo, soluções apresentadas pelos governantes em grandes obras como o Lago de Fronteiras* em Crateús preocupam as organizações sociais, porque tiram moradoras/es do seu lugar e a finalidade pode ser para abastecer preferencialmente o agronegócio e não os pequenos e os/as pequenos/as produtores/as. A construção de pequenos açudes, distribuídos de forma planejada, e a escavação de poços profundos, além da educação contextualizada para convivência com o Semiárido são saídas debatidas pelos movimentos e pastorais sociais. Sobre esse tema, Dom Ailton Menegussi, atual bispo de Crateús, conversou com a equipe de comunicação da Cáritas a respeito de que passos a igreja particular liderada por ele pretende tomar caso a situação permaneça.

Cáritas: A partir do diagnóstico feito no Seminário das Águas, caso as chuvas ano que vem continuem abaixo da média, quais atitudes a Diocese de Crateús pode tomar?

Dom Ailton: Enquanto diocese, não nos cabe soluções técnicas para o problema. O que podemos, devemos e continuaremos a fazer é conscientizar cada vez mais nossa gente para o “uso responsável” da água, e, juntamente com outras entidades e órgãos públicos, cobrar ações dos poderes públicos. Contudo, de minha parte, como homem de fé, não me cansarei de rogar a misericórdia divina, a fim de que tenhamos chuvas mais regulares.

Cáritas: Gostaria que o senhor comentasse a respeito do desafio de liderar uma igreja, no seu primeiro ano de bispado, vivenciando um desafio (imagino) diferente do que o senhor estava acostumado a enfrentar no sudeste.

Dom Ailton: Tudo que é novo encanta e desafia. Não é diferente para um bispo novo. A própria missão episcopal já é um desafio, uma vez que se está à frente, não mais de uma paróquia, mas de uma diocese. As dimensões territoriais, pastorais, administrativas, burocráticas, tudo se multiplica. O desafio da seca, nada fácil de se contornar, mesmo quando há boa vontade e esforço dos poderes públicos (imagina quando não há), muito me tem preocupado. Mas, alegro-me com as iniciativas que as Cáritas e outros têm implementado no sentido de aliviar os sofrimentos do povo (cisternas de placa, de enxurrada, calçadões etc) e de dar alguma oportunidade de convivência com o Semiárido. Há outros desafios de ordem mais interna, de nossas paróquias, pastorais, presbitério, seminários etc. Há, porém, a constatação da fé de um povo muito fiel e acolhedor, que tem sustentado a minha missão nestes primeiros tempos.

Cáritas: Quais orientações o senhor daria para as comunidades diante do atual colapso hídrico que vivemos?

Dom Ailton: Primeiramente, USO RACIONAL E RESPONSÁVEL DA ÁGUA. Todos temos que nos reeducar, no sentido de usar este líquido precioso. Solidariedade e partilha no uso da água que se tem nas comunidades e responsabilidade conjunta em tudo aquilo que se refere ao tema.

Cáritas: O senhor já tem opinião formada a respeito do Lago de Fronteiras* e outras grandes obras que vêm sendo apontadas como solução para a atual situação hídrica de nossa região?

Dom Ailton: Não há unanimidade, pelo que tenho percebido, sobre este tema. A princípio, não sou contra a construção de um lago, pois precisamos de água. Porém, precisa-se ter claro a finalidade do mesmo, a garantia dos direitos das famílias a serem desapropriadas e sua recolocação de modo a usufruir dos benefícios do mesmo lago. De qualquer forma, esta é uma opinião que ainda carece de maiores reflexões.

Cáritas: O senhor acredita que os possíveis governadores apresentaram propostas satisfatórias para superar a crise hídrica, caso ano que vem seja mais um ano de estiagem?

Dom Ailton: Na verdade, não acompanhei de perto o processo político eleitoral do Ceará, neste primeiromomento. Enquanto CNBB Ne 1, juntamente com meus irmãos bispos do Ceará, apresentamos nossas preocupações, e entre elas, o problema da água, aos ditos candidatos ao governo estadual. Infelizmente, parece-me que as preocupações maiores de nossos políticos giram em torno dos grandes centros, onde está o maior coeficiente de eleitores. Assim, me pergunto se estão deveras preocupados com o interior do Estado, sobretudo com os sertões.

Equipe de Comunicação da Cáritas Diocesana de Crateús

 

*A barragem conhecida como Lago de Fronteiras será construída no rio Poti, em Crateús, e deverá acumular 744 milhões de metros cúbicos de água que visa beneficiar 120 mil pessoas entre crateuenses e moradores de cidades vizinhas. Movimentos e pastorais sociais cobram a destinação dos recursos hídricos para a agricultura familiar e acompanham a remoção de famílias, e também acusam a obra de servir ao modelo de desenvolvimento pensado para privilegiar grandes empresas e o agronegócio e não trabalhadoras/es.

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