Na noite de ontem (25/09), na sede do Sindicato das/os Trabalhadoras/res Rurais de Ipaporanga, foi realizado bate-papo entre representantes da Cáritas Diocesana de Crateús, Assembleia de Deus, Comissão Pastoral da Terra, núcleo de Crateús da Rede de Educação do Semiárido Brasileiro (RESAB), Federação das/os Trabalhadoras/es em Agricultura no Estado do Ceará (FETRAECE), e representantes das comunidades desse município. Houve facilitação de Rafael Potiguar, membro do Núcleo Trabalho Meio Ambiente e Saúde para a Sustentabilidade (TRAMAS), organização multidisciplinar da UFC. Buscar se informar mais e melhor tem sido a principal arma que movimentos sociais e comunidades vêm apostando para resistir à instalação de mineradora nas serras do Mundo Novo e Boa Esperança.

“A empresa em geral contrata pessoas para espalhar boatos a respeito da quantidade de empregos que a atividade supostamente vai gerar, mas não explica que quem mora vizinho à obra dificilmente terá qualificação para trabalhar no empreendimento”, argumentou Rafael Potiguar. Segundo relatos dele, a partir do que vivencia na luta da população da região de Santa Quitéria contra a extração de urânio, seriam necessários o equivalentes a 120 carros pipas por hora para suprir a demanda das mineradoras quando instaladas. Ou seja, o que uma pequena cidade consome em dois meses a empresa com concessão para exploração de minério usaria em 60 minutos. Tais números se tornam ainda mais absurdos na região onde se convive com o 4º ano de seca.

Paulo Giovani, membro da RESAB, ressaltou a necessidade da união entre os movimentos sociais para enfrentar tais desafios. “É fundamental que a sociedade civil organizada perceba o papel que tem de protagonista nessa luta”, concluiu. Já o agente Cáritas João Jerônimo da Silva informou que o Programa 1 Milhão de Cisternas coordenado por ele na cidade vem usando o poder de mobilização própria da atividade para conscientizar as/os moradoras/es. “Tivemos uma reunião com 40 famílias na comunidade do Açude Novo e fizemos a denúncia. A gente tem o desafio de informar as pessoas e fortalecer as comunidades e qualquer um de nós pode ser parceiro nessa luta”, defendeu.

A partir do final de setembro as cisternas de placa serão universalizadas em Ipaporanga. Contudo, foi levantada a preocupação de como beber água aparada pelos telhados quando eles estiverem cheios de poeira advinda das explosões inerentes à atividade de exploração a céu aberto. Esse material é extremamente prejudicial à saúde. “Fizemos um intercâmbio levando alguns cidadãos ipaporanguenses para Quiterianópolis, onde uma mineradora de ferro está em pleno funcionamento e alguns moradores puderam sentir na pele o que falamos aqui na teoria”, partilhou o agente Cáritas Lucas Cavalcante. Entre as consequências nefastas desse tipo de atividade está o aumento da prostituição, da violência, de problemas respiratórios, além da desvalorização de imóveis e produção agrícola. Tudo isso já faz parte do cotidiano das pessoas visitadas.

É POSSÍVEL LUTAR CONTRA?

As principais questões debatidas por Rafael Potiguar foram a respeito do quanto é possível lutar contra a força de empresários e políticos poderosos. E se é possível vencer. “Precisamos entender que a mineração é parte estratégica do modelo de desenvolvimento econômico pensado para o país. Contudo, apesar de todos os desafios, considero que é melhor enfrentá-los se organizando do que calando”, explicou. Segundo ele, é importante a comunidade não cair na tentação de se dividir entre contras e a favor, porque a divisão favorece aos empresários.

Potiguar orientou que os 10 olhos d’água encontrados nas serras a serem atingidas sejam registrados rapidamente nos órgãos competentes para que, do ponto de vista das leis ambientais, tal medida seja mais uma ferramenta de resistência. “Nós tivemos que chamar geólogos da universidade para fazer o mapa da água e provar omissões no estudo de impacto ambiental contratado pela empresa que ganhou a concessão para explorar urânio. Uma vantagem fundamental das comunidades é que ninguém conhece o território onde moram do que elas próprias”, defendeu, usando exemplo da luta travada pela Articulação Antinuclear do Ceará, a qual o Núcleo TRAMAS constrói ativamente desde 2011.

No dia 09/10 haverá audiência pública para discutir o Estudo de Impacto Ambiental em Santa Quitéria. Com intuito de fortalecer e integrar a luta contra os abusos da indústria da mineração, um grupo de pessoas deve não apenas apoiar as comunidades, mas também ampliar a articulação entre grupos com problemas comuns.

Por Eraldo Paulino, comunicador Cáritas Diocesana de Crateús

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