As famílias dos municípios de Iracema e Potiretama acordaram cedo para reivindicar por água e outros direitos no Pré-Grito dos Excluídos. As comunidades que ali moram vem sofrendo duramente com a falta de água desde 2012, enquanto a Barragem do Figueiredo, no mesmo território, está cheia.

A barragem faz parte dos projetos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), do Governo Federal. A obra foi anunciada com os objetivos de controle das cheias do Vale do Jaguaribe, irrigação de uma área de 6 mil hectares e abastecimento de água para consumo humano e indústrias.

Desde de sua inauguração desde junho de 2013, a população não viu até hoje a água da barragem chegar às suas casas. Em Potiretama o abastecimento de toda a zona rural e da cidade é feito através de carros pipa pela Defesa Civil. A média é de 20 litros de água por família, que é utilizada para cozinhar e beber. Para as demais necessidades a água é comercializada, custando R$ 80 o preço da carrada, e chegando a R$ 180 nas localidades mais distantes da zona de abastecimento, como é o caso da comunidade de Caatinga Grande.

Pré-Grito em Potiretama leva às ruas a luta pelo direito à água

O Pré-Grito em Potiretama reuniu companheiros do Tabuleiro de Russas, das famílias atingidas pelo perímetro irrigado da Chapada do Apodi (arrendamento de terra pelo governo do Estado para empresas de fruticultura que fazem uso de agrotóxicos com técnicas como pulverização aérea, contaminando a população local e expulsando os pequenos agricultores da região), da Cáritas Diocesana de Limoeiro e outras organizações e cidadãos solidários à causa. “Por onde passávamos o cenário era desolador, ver a indústria da seca se materializando na cidade. Todas as residências tem vários tipos de reservatórios na frente das casas esperando que a água chegue”, relata Anjerliana Souza, da Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte.

Durante o percurso do Pré-Grito duas paradas foram feitas. Uma em frente a Prefeitura, onde a juventude reverberou seus gritos de protesto contra a realidade de Potiretama, e em frente a Cagece, órgão responsável pela gestão municipal da água. Uma terceira e última parada foi feita na Igreja Matriz onde realizaram uma roda sobre as reivindicações e estenderam uma faixa preta em sinal de luto pela negação do direito à água, essencial à vida.

Nesta quarta-feira (dia 23), parceiros se reuniram com as comunidades para debater sobre a situação das famílias que vivem no território da Barragem do Figueiredo e elaboraram uma carta com o conjunto de conclusões e denúncias. Abaixo segue o conteúdo da carta na íntegra:

 

CARTA DE DENÚNCIAS E REIVINDICAÇÕES DOS TERRITÓRIOS

As comunidades que compreende os territórios da Barragem do Figueiredo dos municípios de Potiretama e Iracema e a Paróquia Nossa Senhora do Perpetuo Socorro em parceria com os companheiros/as do Tabuleiro de Russas, da Chapada do Apodi, da Cáritas Diocesana, da Universidade Federal do Ceará e do Instituto Federal do Ceará, reuniram-se no dia 23 de julho de 2014 na comunidade de Caatinga Grande. Após um dia de intensos debates, exposições e visitas às formas de produção local, as comunidades deliberaram este conjunto de conclusões e denúncias:

1. As famílias de Potiretama estão sofrendo com a falta de água desde 2012. Hoje toda a zona rural e a sede da cidade são abastecidas com carro pipa. A defesa civil abastece uma média de 20 litros de água por família, utilizados para beber e cozinhar. Para as demais necessidades é preciso comprar. Nessas circunstâncias, algumas famílias estão acumulando dívidas para conseguir comprar água. O valor mínimo da carrada d’água é de R$ 80,00, chegando a R$ 180,00, como é o caso da região que compreende as comunidades de Caatinga Grande, distantes da zona de abastecimento;

2. As famílias atingidas pela obra da Barragem do Figueiredo, em 2000, foram transferidas para as residências somente este ano e continuam sem água, sem energia, sem terra para produção, dentre outras necessidades básicas;

3. No âmbito da educação foi constatado que alunos/as continuam sendo transportados em pau-de-arara. Os poucos ônibus escolares disponíveis são superlotados e não conseguem garantir o transporte de todos os estudantes. Muitos ainda esperam o término da construção de novas escolas e estão provisoriamente estudando em casas de família alugadas pela Prefeitura.

4. Quanto à saúde, faltam médicos, remédios e transporte para fazer a transferência de doentes para Fortaleza. A estrutura local não atende as demandas da população.

5. A mobilidade está seriamente comprometida, pois as estradas precisam de recuperação urgente.

Neste sentido, as comunidades de Potiretama, Alto Santo e Iracema, com apoio dos parceiros/as acima assinalados vêm reivindicar:

1. Água em quantidade e qualidade para as necessidades dos moradores de Potiretama; uma adutora emergencial e definitiva; a recuperação e perfuração de novos poços; além da NÃO privatização da água do Açude/Barragem do Figueiredo por empresa do agronegócio. Ressaltamos que a água é direito essencial à vida;

2. Transporte escolar em condições adequadas para a mobilidade dos estudantes e sem prejuízo das atividades. Conclusão das obras para construção de novas escolas e das quadras de esporte para garantir o acesso à educação de crianças e jovens de Potiretama;

3. Melhoria no abastecimento dos postos de saúde, tanto na parte humana (com a contratação de médicos), quanto na parte estrutural (com aquisição de remédios e transportes consoante a demanda de transferências de doentes para Fortaleza);

4. Recuperação e manutenção das estradas para segurança de moradores e cidadãos que circulam pela região;

Diante do exposto, nos unimos na luta para a conquista desses direitos compreendendo que a participação social nos processos de decisão e encaminhamento de ações pelo governo é fundamental para o exercício da cidadania. Nesse sentido, frisamos que mobilização popular não deve ser criminalizada. É direito conquistado e garantido pela Constituição e, portanto, deve ser respeitada.

Por fim, reforçamos que as ações emergenciais precisam ser encaminhadas e acompanhadas de políticas públicas estruturantes para garantir segurança hídrica e alimentar da população.

Assim, a população de Potiretama exige que a Prefeitura abra diálogo e negociação para atender as demandas dos cidadãos já apresentadas ao poder municipal desde 2013. De maneira objetiva queremos saber: o que foi encaminhado e o que será feito.

Potiretama, 23 de julho de 2014

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