“Que faça acordar os homens e adormecer as crianças”. No colo da mãe a criança aguarda despreocupada as definições da negociação.

Se Carlos Drummond de Andrade um dia quis preparar uma canção “que faça acordar os homens e adormecer as crianças”, ficaria feliz ao ver a meninada pegar no sono no colo das mães enquanto participavam da Mesa de Negociação entre moradores dos conjuntos São José e Nsª Srª de Fátima III e o Poder Público do município de Crateús-CE e Polícia Militar do Ceará realizada na noite de ontem (22/07). A ação é assessorada pela Cáritas Diocesana de Crateús (CDC), que a desenvolve como parte do Plano de Desenvolvimento Local Sustentável (PDLS) realizado há cerca de dez anos e nessas comunidades há seis. Participaram também nove representantes da Cáritas Diocesana de Itapipoca (CDI).

Nesses tempos em que em várias partes do Brasil, principalmente Rio de Janeiro, há perigosos flertes com Estado de Exceção, com direitos de cidadãos sendo ignorados por se oporem a quem detém o poder, as comunidades da periferia de Crateús deram exemplo de que, com organização e empoderamento, o povo não só pode como deve exigir políticas públicas dos/as governantes. “A Mesa de negociação é uma conquista democrática da comunidade, na qual o povo reúne, diagnostica forças, oportunidades, fraquezas e ameaças e a partir daí define as demandas para contratuar com quem de direito tem a atribuição de atender as demandas”, explicou Jerônimo da Silva, agente da CDC.

“A área onde moram nossas famílias era completamente desabitada, onde só funcionava um matadouro clandestino. A cada mesa de negociação fomos conquistando direitos a moradia, energia elétrica, água e hoje continuamos nessa dinâmica graças em muito às Escolas de Cidadania promovidas pela Cáritas. Hoje assumimos nosso próprio destino”, argumentou o líder comunitário José Brhitnes de Castro. Num ano eleitoral, crianças, adolescentes, adultos e pessoas idosas de um lugar onde moram pessoas com escolaridade ainda muito baixa e limitado poder aquisitivo, o típico local onde há compras de votos, “é louvável perceber as pessoas recebendo benefícios sem achar que isso é favor, nem tão pouco motivo de devoção a quem é pago para representar o povo.

“Nós da Cáritas de Itapipoca também realizamos o PDLS em nossa diocese, mas ainda estamos começando. Por isso é muito importante para nós poder ver o nível de organização da comunidade, o Poder Público aqui presente compreendendo que é dever deles atender às demandas comunitárias e poder aprender com a experiência da Cáritas de Crateús”, avaliou Rosineila Lima, agente da CDI.

NEGOCIAÇÃO

A dinâmica do PDLS consiste em pessoas da comunidade apresentarem as demandas percebidas após realizarem diagnóstico e as devidas investigações sobre o que a Lei determina. Em seguida é marcada a mesa, cuja primeira parte é feita com exposição das demandas (previamente repassadas às autoridades), para em seguida ficar facultado à mesa o pronunciamento. Ontem esta foi composta pelo prefeito Mauro Soares e pelos representantes da Secretaria de Saúde e Vigilância Sanitária, Secretaria de Infraestrutura, , Secretaria de Assistência Social, Secretaria de Habitação e do Grupo Ronda do Quarteirão, da Polícia Militar do Estado do Ceará. A Companhia de Água e Esgoto do Ceará (CAGECE) foi convidada, mas não compareceu.

No total foram 15 reivindicações para os governos municipal e estadual e para a Cáritas de Crateús. Entre os principais pontos estavam Saneamento do Conjunto Nossa Senhora de Fátima, construção de quadra esportiva coberta (comunidade já tem terreno), cursos profissionalizantes, Blitz educativas e continuidade nas Escolas de Cidadania. Sobre as duas primeiras demandas o prefeito Mauro e o secretário de Infraestrutura, Adaílton Ribeiro se comprometeram em até o dia 15 do próximo mês fazer projeto dos calçamentos e da quadra esportiva “pra vermos se poderemos atender às demandas com recursos próprios ou teremos de recorrer à emendas parlamentares”. De imediato a líder comunitária Edilene Lima Rodrigues replicou lembrando que quando há vontade política é possível. “Sabemos que há muitas emendas pra cá”, concluiu.

Mesa de negociação bem representada.

A respeito dos cursos profissionalizantes, Manuela Alves Ferreira, coordenadora do CRAS III, entidade que atende a área após reivindicação de uma das mesas de negociação, confirmou que já há cursos profissionalizantes, mas muitas vezes os moradores dos dois bairros não acessam por não estarem dentro do critério de escolaridade mínima ou pelo fato de não terem afinidade com o curso oferecido. “Estamos com vagas abertas para curso de depilação. Nos comprometemos em fazer maior divulgação quando houver outros”, afirmou. Fim da mesa, início de outro passo do PDLS: o pós-mesa, onde “vamos cobrar que todos os acordos sejam cumpridos, se não denunciamos”, explicou Edilene.

Todas as outras demandas foram dialogadas com devidos compromissos firmados e assinados entre povo entidades governamentais. “Nossa experiência confirma que 70% das demandas apresentadas nas mesas de negociação são atendidas. E as que não são deixam com mal estar a gestão que não cumpriu a palavra”, ressalta Dulce Fabian, agente CDC.

Por Eraldo Paulino, comunicador Cáritas Diocesana de Crateús, Ceará

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