Enquanto chefes de estado e empresários de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul se reúnem na VI Cúpula dos BRICS para discutir planos de desenvolvimento econômico, não tão distante dali – o Centro de Eventos de Fortaleza -, organizações da sociedade civil dos mesmos países e de outros territórios se encontram para discutir o impacto do modelo de desenvolvimento e dos projetos em debate pelos BRICS.

O encontro “Diálogos sobre Desenvolvimento” teve início na segunda-feira (dia 14/07), no Condomínio Espiritual Uirapuru, concomitante ao encontro dos BRICS. É organizado por várias entidades e organizações sociais locais e nacionais, e apoiado por instituições internacionais.

Possibilitar o encontro da sociedade civil para a troca de realidades tem sido o maior propósito desse espaço, a partir da compreensão de que as decisões econômicas dos BRICS afetam a vida da população dos países do bloco e dos países que estão sob o alvo dos seus interesses. Além de ser, sobretudo, um momento para criar mecanismos de integração que unam, fortaleçam e deem visibilidade às lutas das comunidades em todo o mundo. Estas tão familiares, como constatou a moçambiquenha Graça Samo, do Foro Mulher e da Marcha Mundial das Mulheres, na mesa de abertura do encontro. Graça relatou a exploração das minas de carvão do país pela empresa brasileira Vale e o impacto causado na vida da população local. “As histórias se repetem em todos os territórios e eu percebo o meu país como alvo dos BRICS”. Denuncia a atuação da Vale na província de Nampula, de onde a empresa tem como perspectiva embolsar, até final de 2015, mais de 8 bilhões de dólares, às custas da desfragmentação da comunidade, do empobrecimento da população, e do agravamento de situação de vulnerabilidade, como a exploraçãos sexual das mulheres da região. Não por coincidência, nesta terça-feira (dia 15/07), foi anunciada a retomada das operações da mineradora chinesa Haiyu Monzambi Mining. Graça não sente seu país como alvo por menos.

Mesa de abertura do Encontro “Diálogos sobre Desenvolvimento – os BRICS na perspectiva dos Povos”

Assim como ela, organizações do Brasil socializam suas lutas e impressões, ajudando a traçar o cenário em que o país se encontra e o que se pode constatar sobre o que está por vir com mais um passo para a consolidação da cooperação de mercado entre os BRICS. Adriana Vieira, militante feminista da Marcha Mundial das Mulheres, vive no lado potiguar da Chapada do Apodi. Lá, uma região tipicamente agrícola, a comunidade enfrenta uma dura guerra contra as empresas nacionais e multinacionais de produção frutífera (assim como no lado cearense), que se instalaram no perímetro irrigado da Chapada. Naquela região o agronegócio vem tomando os territórios dos pequenos agricultores, envenenando às terras com o uso de agrotóxicos e comprometendo a saúde da população. Estudos do Núcleo TRAMAS, da Universidade Federal do Ceará, comprovam o aumento de casos de câncer, entre os moradores, diretamente relacionados com a pulverização aérea nas plantações.

Diante dessas circunstâncias, os defensores de direitos também se tornam alvo na queda de braço contra o tipo de desenvolvimento adotado pelos BRICS. No Ceará, João Joventino, conhecido como João do Cumbe, de Aracati, no Ceará, é liderança comunitária. Ele está respondendo processo sobre formação de quadrilha e roubo de camarão. Sua luta é contra os impactos sociais e ambientais da carcinicultura. Dentre eles estão a alteração ambiental no entorno dos criatórios em razão do uso de químicos nos cativeiros, a contaminação dos trabalhadores que estão em contato com os produtos e a água, além da salinização das reservas de água do local.

Espaço sobre Desenvolvimento e Conflitos: defensores de direitos humanos na linha de frente (lançamento da Campanha “Linha de Frente”)

Nesta terça-feira, enquanto os movimentos sociais discutiam as desiguldades socioambientais (como maior desafio do bloco), participação social, o papel de uma governança democrática e responsável, o combate às desigualdades e a ameaça aos defensores de direitos humanos (com o lançamento da campanha “Linha de Frente”), os BRICS anunciavam a criação do Novo Banco de Desenvolvimento, que financiará os projetos de infraestrutura; e o Arranjo Contingente de Reservas, nos moldes do Fundo Monetário Internacional (FMI, para ajudar países com dificuldade no balanço de pagamentos. Dentro da defesa de linha de atuação do bloco dos tidos como as princiapis economias emergentes do mundo, os BRICS trabalharão a partir do “desenvolvimento sustentável”. Cabe uma grande interrogação da sociedade em qual conceito de sustentabilidade eles estão baseando esse desenvolvimento.

Por Raquel Dantas, da Cáritas Brasileira Regional Ceará

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