Sementes, frutos, sonhos, saberes foram compartilhados num cantinho de um outro mundo possível na praça dos Pirulitos em Crateús-CE nos últimos dias 05 e 06 de junho. A X Feira da Agricultura Familiar e Economia Popular Solidária foi uma verdadeira celebração pela vida no campo, com cerca de 190 empreendimentos inscritos, o dobro em relação ao ano passado, cerca de 400 feirantes, cuja maioria são mulheres, entre agricultoras/es e artesãs/ãos.

“Quase tudo foi conseguido com doações. Alojamentos, materiais de cozinha, transportes, etc., além da parceria com as prefeituras dos 20 municípios do território Inhamúns-Crateús, principalmente da prefeitura da cidade sede que disponibilizou todas as secretarias à disposição do evento, especialmente as de meio ambiente e de agricultura”, comentou Erbênia Sousa, coordenadora da Cáritas Diocesana de Crateús.

Agricultores dessas 20 cidades e de Tianguá, Limoeiro, Crato, Fortaleza e Sobral reuniram-se com objetivo de não apenas divulgar e colocar a cidade em contato direto com quem produz de fato os alimentos que chegam ao mundo urbano. Além disso a feira realizada na semana do meio ambiente disponibiliza 100% dos alimentos orgânicos e sem uso de agrotóxicos. Grande parte dos produtos do artesanato são oriundos de materiais descartados pela humanidade ou pela natureza, demonstrando concretamente que sustentabilidade gera riquezas.

No período em que a Cáritas anima a Campanha Mundial Contra a Fome “Uma família humana, pão e justiça para todas as pessoas”, foi dada mais uma vez na feira a demonstração de que a superação não só da fome de comida, mas também de justiça, de relações de gêneros igualitárias, da relação sustentável com a natureza e diversas outras só podem ser superadas com a valorização do campesinato, da agricultura familiar e de uma relação mais harmônica com tudo que nos cerca.

“Enfrentamos dificuldades de estiagem, escassez d’água como algo peculiar ao nosso bioma Caatinga. Quando começamos a aprender melhor como conviver com o semiárido, adquirir tecnologias de convivência com esse meio, implementarmos quintais produtivos e nos a nos organizar em associações e cooperativas sentimos necessidade de termos uma feira”, recorda Erbênia. No início Cáritas, Fetraece e Secretaria Municipal de Agricultura de Crateús começaram a organizar a feira em 2005. Em 2010 somaram-se à Ciranda mais de 20 organizações da sociedade civil e governamentais.

OS PASSOS DA FEIRA

No primeiro dia de feira houve assembleia dos feirantes, onde entre outras coisas foi acordado o preço justo para cada produto entre todas/os, para não haver competição e sim cooperação. À noite a ocorreram shows culturais. A programação do segundo e último dia iniciou com espaço para as oficinas temáticas de Medicina Alternativa, Cultura, Reciclagem e Economia Solidária. O momento é pensado para a troca de experiências e saberes entre os feirantes sobre os quatro temas de trabalho que a feira incorpora.

A oficina sobre Economia Solidária contou com mais de 40 participantes entre os feirantes, além de 27 estudantes da Escola Família Agrícola Dom Fragoso, e debateu experiências de comercialização justa e solidária. Risoneide Amorim, coordenadora de projetos do Instituto Marista de Solidariedade, contribuiu com leituras sobre os conceitos de comércio e a lógica da economia solidária, levantando questões para uma dinâmica coerente centrada na valorização e respeito à vida e ao meio ambiente, como a autogestão e ausência de relações hierárquicas de trabalho, o equilíbrio de comercialização a partir de preços justos e o uso consciente dos recursos naturais, levando em consideração os princípios da agroecologia.

Na oficina de Reciclagem o foco foi o cuidado com o meio ambiente. Na oficina de Medicina Alternativa as experiências se voltaram para o potencial de cura das plantas nativas e a apropriação, disseminação e uso desses saberes pelo povo. E na oficina de Cultura foi debatida a importância da valorização das culturas locais e com isso estimular novas maneiras de nos relacionarmos com a/o outra/o e com o meio ambiente.

Dez anos de acúmulo para uma dinâmica de valorização da vida

Isaías Pereira também é de Independência, tem 25 anos e veio com a mãe e a irmã para comercializar a pimenta de cheiro, o doce de leite, a cocada e a paçoca. Tudo produzido em casa. É a primeira vez que participam da feira de Agricultura Familiar e Economia Solidária de Crateús. “A mãe a vida inteira passou pra gente o valor de consumir o que a gente produz”, conta Isaías. Dentre os jovens da sua geração em Independência, poucos optaram pela vida dedicada à agricultura e bem menos se importam com a produção agroecológica. E ele se preocupa com isso. Pensa o que será do nosso consumo com o aumento do uso de agrotóxicos e do espaço e condições dos trabalhadores que ainda resistem no campo se a mecanização tomar conta de tudo.

Ainda bem que existe gente que compreende a importância da agricultura familiar e valoriza espaços como a feira do território dos Inhamuns. Vanuza Rodrigues é uma delas. Moradora de Crateús, participa da feira desde a sua primeira edição em 2004. “Pra gente é um atrativo, conhecer o que está sendo produzido na nossa região e ter uma opção de acesso a produtos saudáveis.”

Antonieta de Sousa agradece. Moradora da comunidade de Filomena, em Crateús, sua produção de cheiro verde, molho de pimenta, polpa de fruta e doce de buriti vai para o consumo próprio, para a venda entre as 62 famílias da localidade onde vive e para a cidade, para onde leva os produtos duas vezes por semana. É a quinta edição da feira que participa. Foi graças a esse espaço que ela conseguiu garantir o aumento dos seus pontos de venda, as vezes nem dando conta de toda a demanda.

Por Raquel Dantas, Cáritas Regional Ceará e Eraldo Paulino, Cáritas Diocesana de Crateús.

 

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