Feirantes durante preparativo para X Feira da Agricultura Familiar

“Quem disse que não somos nada, que não temos nada para oferecer?”. O trecho da música composta por Zé Vicente e padre Machado virou frase símbolo da Feira da Agricultura Familiar e da Economia Solidária da região dos Inhamúns, em território cearense. A cada edição a confiança nessas palavras se fortalece. Nesta quarta, dia 05, Crateús deu início a décima edição da feira, com a participação de cerca de 450 pessoas, entre feirantes, colaboradores voluntários e contratados, além da expectativa de visitação de mais de nove mil pessoas. A Feira de Inhamúns é uma das maiores feiras agroecológicas do Brasil.

“Essa feira mostra concretamente que podemos acreditar na sustentabilidade e na força da agricultura familiar, na economia popular solidária e no semiárido”, provoca Erbênia Sousa, coordenadora da Cáritas Diocesana de Crateús, uma das entidades que coordenam a feira. Ela é uma das pessoas que ajudaram nos primeiros passos da feira e hoje celebra a décima edição do evento que não deixou de ocorrer em nenhum ano, mesmo nos de estiagem prolongadada, como em 2009. “Quando começamos a falar de quintais produtivos, a aprender como conviver melhor com o semiárido, surgiu o desafio de comercializar essa produção feita em harmonia com o meio ambiente. Daí surgiu o sonho”, recordou Erbênia durante a assembleia dos feirantes realizada, como de costume, na tarde do primeiro dia de feira, sempre no Dia do Meio Ambiente.

“Tudo o que eu produzo é orgânico, em sintonia com o meio ambiente e de ótima qualidade. Me sinto feliz em participar desse espaço porque assim podemos mostrar que é possível produzir muito e com ótima qualidade sem agrotóxicos”, ressaltou Simão Brito, agricultor que trouxe produtos das comunidades Bacupari e Boa Esperança, do município de Ipueiras. Ele está entre os 78 feirantes homens, que junto a 190 mulheres, trabalharão nesses dois dias. “Não sei ainda se eu vou dormir em colchão ou em rede, mas não importa. O que vale é a troca de experiências e a possibilidade de divulgar o nosso trabalho”, argumentou Antônia de Souza Soares, a famosa “Toinha” da comunidade de Ipueiras, em Quiterianópolis

Programação garante integração e formação

Assembleia das/os Feirantes

Durante os dois dias de encontro, estão programadas espaços de organização da feira, oficinas para troca de experiências por setores de produção, além da própria comercialização nos dois dias pelo período da noite na praça dos Pirulitos, onde também ocorrem diversas apresentações culturais. Ao longo do segundo dia será realizado oficinas para feirantes abertas ao público interessado. Economia Popular Solidária, Medicina Alternativa, Cultura e Reciclagem são os temas dos espaços.

Além dos 20 municípios do território do Sertão dos Inhamúns/Crateús também participam desta feira experiências de Tianguá, Sobral, Fortaleza e Morrinhos, dando a este evento o status de feira estadual. “A expectativa é fazer intercâmbio com outras experiências. Conhecer a produção de outros artesões e outras artesãs e também mostrar o que temos feito lá em Sobral”, comentou Maria do Socorro de Jesus, agente Cáritas da Diocese de Sobral, que junto a uma comitiva veio representar a Rede Budega Arcos (Artesanato das Comunidades Solidárias).

A partir dessa feira, todos os municípios realizam experiências do tipo, seja diariamente, semanalmente ou mensalmente. Feirantes de todas as cidades do território realizaram assembleias municipais para pensar o evento que é construído todos os anos pelos movimentos sociais com apoio das prefeituras municipais, especialmente a de Crateús. “É a agricultura familiar que alimenta as cidades, e não o agronegócio que prioriza a exportação. É muito importante esse espaço onde o cidadão e a cidadã podem ter contato com quem de fato produz alimentos e com quem faz com práticas sustentáveis produtos que não agridem o meio ambiente, seja agroecológicos, seja artesanatos”, disse Carlos Sousa, mais conhecido como Cauim, secretário municipal de meio ambiente de Crateús.

Legado de Fragoso

Curiosamente a 10ª feira ocorre em ano de intensa celebração para a Diocese de Crateús. Neste local onde Zé Vicente atuou por anos e onde escreveu alguns dos seus versos mais famosos, celebra-se o jubileu de 50 anos de existência dessa igreja particular. Dom Fragoso, primeiro bispo diocesano deste território e falecido em 2006, ficou conhecido por estimular a valorização e práticas de convivência com o semiárido, além de provocar o povo para criação de sindicatos, sobretudo de trabalhadoras e trabalhadores rurais. Todos os sindicatos dos municípios que fazem parte da diocese têm representantes na feira. Em agosto desse ano, os restos mortais dele serão trazidos para a cidade onde ele será lembrado eternamente, seja pelo que disse e fez, seja pelo legado capaz de animar a décima edição de muitas feiras ainda por vir.

 

Por Eraldo Paulino, comunicador da Cáritas Diocesana de Crateús

 

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