Com a temática “Sementes crioulas como espaço de aprendizado e valorização de práticas agroecológicas para convivência com o Semiárido”, a Rede de Intercâmbio de Sementes (RIS) da Microrregião Norte se reuniu entre os dias 27 a 29 de junho, no Assentamento Poço Salgado, no município de Santana do Acaraú. A partir do tema do encontro, a problemática do ano de seca que vivemos teve centralidade na discussão dos agricultores e agricultoras.

“Discutir a seca foi importante para nos ajudar a compreender a realidade que estamos vivenciando e de pautar as Sementes crioulas como espaço de aprendizado e valorização de práticas agroecológicas que se traduzem na convivência com o Semiárido. Fazer com que juntos possamos criar alternativas de conviver e viver dignamente no sertão, preservando a biodiversidade, tendo segurança alimentar e com práticas associadas a realidade climática e sustentáveis… enfim, que todos/as vejam essa região como espaço digno, saudável e principalmente viável.”, aponta Erivan Camelo, da Cáritas Diocesana de Sobral, uma das instituições que compõem a RIS.

O encontro contou com a participação de 70 pessoas, sendo 39 homens, 31 mulheres e com destaque para a presença de 21 jovens de diversos municípios da região que se juntaram em torno da mística dos povos do semiárido, afinal: “O Nordeste é a terra prometida aos nordestinos”

Caminhando a metodologia do encontro foram apresentadas diversas tecnologias sociais de convivência com o semiárido: cisterna calçadão, barragem subterrânea, mandala, roçado ecológico e a Escola de Vivência Agroecológica que desenvolve o projeto “De volta a floresta para o meu quintal” com várias pessoas da comunidade. A visita às experiências gerou um rico debate em torno das alternativas criativas propostas e executadas pelas famílias que conseguem minimizar os efeitos da estiagem para quem tem acesso a elas.

Na noite do dia 28 a comunidade realizou a Festa da Colheita, mesmo em uma ano sem chuvas e de colheita fraca todos e todas acreditavam que era preciso celebrar mesmo o pouco que conseguiram colher.

Carta
Agregando as reflexões dos três dias de encontro a RIS – Microrregião Norte elaborou uma Carta Aberta, que reproduzimos abaixo:

Carta Aberta da Rede de Intercâmbio de Sementes da Micro-região Norte

Minha terra foi à mão de Deus que fez
E por isso nunca irei daqui sair
Cada seca que vier vou resistir
Convivendo e inventando o bem viver

Somos mulheres, homens, jovens que compomos a Rede de Intercâmbio de Sementes (RIS) da microrregião Norte Ceará e que reunidos entre os dias 27 a 29 de junho de 2012 no Assentamento Poço Salgado, município de Santana do Acaraú, decidimos dizer por meio dessa carta que as sementes crioulas são elementos centrais para a preservação da biodiversidade do semiárido e que nós estamos presentes nas lutas por autonomia e liberdade dos agricultores e agricultoras. Lutamos pelo direito de definir nossas práticas produtivas e nossos sistemas alimentares que serão sempre baseados nas sementes por nós cuidadas.
Em um ano de seca como este que estamos atravessando, fica cada vez mais evidente, a importância das tecnologias sociais de captação de água para o consumo humano e para a produção de alimentos, destacamos aqui as casas de sementes, cisternas de placa, cisternas calçadão, tanques de pedra, barragens subterrâneas, hortas, mandalas, quintais produtivos, entre outros. Além de reconhecer a importância reivindicamos incentivos às famílias agricultoras para a implementação e fortalecimento dessas e de outras experiências que fortalecem os sertanejos e sertanejas e principalmente em anos com chuvas escassas e que estimulam a permanência da juventude no campo.
Pela dinâmica climática da região, com secas agudas em alguns anos, deve-se estimular fortemente as iniciativas das redes regionais de sementes crioulas. Impedindo com isso a proliferação das sementes geneticamente modificadas que podem levar à dependência de insumos químicos, a proliferação de doenças naqueles\as que manuseiam os venenos e também nos\as que consomem os alimentos cultivados com agrotóxicos.
Também são indispensáveis as ações baseadas na valorização dos saberes locais, no apoio às iniciativas criativas das comunidades e de suas capacidades de gestão e o incentivo às organizações comprometidas com o projeto do desenvolvimento sustentável da região, como aquelas organizadas pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA BRASIL).
Diante desse contexto, propomos\reivindicamos como medidas emergenciais:
• Distribuição de água de qualidade para as comunidades dos municípios aqui presentes a partir do levantamento dos Sindicatos dos Trabalhadores/as Rurais.
• Liberação imediata do Garantia Safra para os agricultores e agricultoras dos municípios em situação de emergência e ampliação do número de parcelas.
• A Conab abasteça os postos para a venda em balcão com arroz, feijão e farinha e mantenha a venda do milho.
• Fortalecer em conjunto com o Fórum Cearense pela Vida no Semiárido a Campanha “Não troque seu voto por água”.
Como medidas estruturantes:
• Implementação e fortalecimento de Casas de Sementes na Microrregião Norte.
• A imediata implantação e funcionamento da Escola Família Agrícola (EFA) no município de Cruz e fortalecimento das diversas experiências da sociedade civil do território.
• Universalização do acesso a cisternas de placa para o consumo humano e acesso à água para produção através das tecnologias sociais de convivência com o semiárido.
Santana do Acaraú, 29 de junho de 2012

*Monyse Ravenna, Assessora de Comunicação da Cáritas Regional Ceará

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